Mato Grosso do Sul está deixando de ser apenas um grande produtor de grãos para avançar também na transformação da matéria-prima dentro do próprio Estado. O movimento busca agregar valor à produção de soja e milho, além de reduzir os impactos dos gargalos históricos de armazenamento e logística.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram a força do Estado no cenário nacional. Na safra de 2025, Mato Grosso do Sul ficou em quinto lugar na produção de soja, com 13,1 milhões de toneladas, e em quarto lugar na produção de milho, com 13,8 milhões de toneladas.
Nesse cenário, o processamento dos grãos surge como uma alternativa para ampliar o valor comercial da produção antes mesmo de ela deixar Mato Grosso do Sul.
Da soja, por exemplo, são produzidos óleo e farelo a partir do esmagamento do grão. O farelo possui alto teor de proteína e é utilizado principalmente na alimentação animal. Já o milho pode ser transformado em produtos como o DDG (Dried Distillers Grains), subproduto da produção de etanol que concentra proteínas, fibras e gorduras.
Apesar de serem classificados como subprodutos dos processos industriais, farelo e DDG representam novas oportunidades de mercado para a cadeia produtiva.
Soja processada vale mais
Uma análise da Aprosoja/MS sobre as exportações de junho mostra o potencial de agregação de valor com o processamento da soja.
No período, o quilo do grão foi comercializado a US$ 0,44, enquanto o óleo bruto alcançou US$ 1,18 por quilo e o farelo foi negociado a US$ 0,37.
Considerando que cada quilo de soja rende aproximadamente 19% de óleo e 79% de farelo, o valor equivalente do grão processado chega a cerca de US$ 0,51 por quilo. O resultado representa um ganho de aproximadamente US$ 0,07 por quilo em relação à comercialização da soja in natura.
O aumento também aparece nos volumes exportados. Segundo dados levantados pela Aprosoja/MS, os embarques de farelo de soja realizados por Mato Grosso do Sul entre janeiro e junho de 2026 cresceram em relação aos mesmos períodos dos anos anteriores.
O destaque ficou para abril, maio e junho, quando os embarques ultrapassaram 100 mil toneladas.
Mesmo com a queda do preço médio do farelo observada desde 2023, o cenário é considerado positivo pelo analista de Economia da Aprosoja/MS, Linneu Borges Filho.
"A queda no preço médio, nesse caso, funciona como uma ferramenta para estimular a demanda pelo grão processado e acelerar a industrialização do setor no Estado. Preço mais competitivo significa mais mercado, e mais mercado significa mais investimento em processamento aqui dentro de Mato Grosso do Sul".
Milho também ganha espaço
O milho segue uma trajetória semelhante, embora os volumes de DDG exportados pelo Estado ainda sejam menores.
Os embarques do subproduto registraram crescimento nos primeiros meses de 2026 em comparação com o histórico recente, com destaque para abril. Depois de recuar entre 2022 e 2024, o preço médio do DDG voltou a subir em 2025 e permaneceu em patamar elevado em 2026.
A demanda internacional também abre espaço para produtos com maior concentração de proteína.
Um exemplo citado pela Aprosoja/MS é o mercado europeu. Na Holanda, a reestruturação da cadeia pecuária, com redução do rebanho e aumento da produtividade para atender a exigências ambientais, aumenta a necessidade de uma alimentação animal mais eficiente e rica em proteína.
O farelo de soja também é utilizado por outros países europeus e possui mercado na piscicultura.
"O setor que depende desses subprodutos vai demandar cada vez mais. É um mercado que está se tornando mais valorizado, e Mato Grosso do Sul tem todas as condições de ocupar um espaço maior nele".
Industrialização ganha força
O avanço do processamento representa uma mudança na posição de Mato Grosso do Sul dentro da cadeia do agronegócio.
Em vez de concentrar a comercialização na exportação de grãos, o Estado passa a ampliar a transformação da matéria-prima em produtos com diferentes mercados e aplicações.
Além de agregar valor à produção, a industrialização pode estimular investimentos, gerar empregos, ampliar a arrecadação e reduzir parte da dependência dos custos e limitações relacionados ao transporte e armazenamento.
Com isso, soja e milho deixam de representar apenas grandes volumes produzidos no campo e passam a movimentar uma cadeia industrial cada vez mais diversificada dentro de Mato Grosso do Sul.
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