Diretrizes científicas apontam queda na motilidade e danos no DNA espermático a partir dos 40 anos
Por muito tempo, a infertilidade foi tratada como uma questão predominantemente feminina. A explicação parecia simples: enquanto as mulheres nascem com uma reserva limitada de óvulos, os homens continuam produzindo espermatozoides ao longo de toda a vida reprodutiva.
Essa diferença biológica ajudou a consolidar a ideia de que a fertilidade masculina permaneceria praticamente intacta com o passar dos anos. No entanto, as pesquisas mostram que a realidade é mais complexa e que a idade também exerce influência importante sobre a capacidade reprodutiva dos homens.
A maioria dos estudos sobre fertilidade masculina concluiu que, com a idade paterna avançada, o homem tem uma piora progressiva dos parâmetros seminais. O caráter silencioso do envelhecimento masculino foi mapeado no estudo publicado pela revista científica americana Fertility and Sterility.
Ao analisarem amostras de mais de 5 mil homens, pesquisadores da California Fertility Partners identificaram os marcos exatos do declínio seminal. Enquanto os parâmetros permanecem estáveis até os 34 anos, a concentração e o formato ideal dos espermatozóides sofrem uma queda estatisticamente significativa a partir dos 40 anos. Já a capacidade de movimentação (motilidade) dessas células despenca após os 43 anos, característica responsável para alcançar o óvulo.
Outro aspecto revelado no periódico científico The World Journal of Men's Health, elaborado por um comitê global composto por 24 dos maiores especialistas e andrologistas do mundo, foi o aumento da fragmentação do DNA espermático. Em outras palavras, os espermatozoides passam a apresentar mais danos em seu material genético, o que pode dificultar a fecundação, reduzir as taxas de sucesso dos tratamentos de reprodução assistida e aumentar o risco de perdas gestacionais.
O documento estabeleceu que o teste de Fragmentação do DNA Espermático deve ser ferramenta ativa na investigação clínica para elucidar casos de abortos de repetição, falhas sucessivas em tratamentos de Fertilização In Vitro (FIV) e avaliar homens com varicocele, cujo sêmen parece normal à primeira vista no espermograma tradicional.
Estudos também apontam que a idade paterna avançada, geralmente acima dos 45 ou 50 anos, pode estar associada a um aumento discreto do risco de determinadas alterações genéticas e transtornos do neurodesenvolvimento nos filhos. Embora a maioria das gestações ocorra sem complicações, os dados reforçam a importância de incluir os homens nas discussões sobre planejamento reprodutivo.
Muito além da idade
O envelhecimento não é o único fator capaz de afetar a fertilidade masculina. Hábitos de vida também exercem papel importante na saúde reprodutiva.
Tabagismo, consumo excessivo de álcool, obesidade, sedentarismo, estresse crônico e doenças metabólicas podem comprometer a produção e a qualidade dos espermatozoides. Em muitos casos, esses fatores se somam ao envelhecimento natural, acelerando o declínio da fertilidade.
Além disso, algumas condições médicas frequentemente passam despercebidas durante anos. Entre elas está a varicocele, caracterizada pela dilatação das veias da bolsa escrotal. O problema pode elevar a temperatura dos testículos e prejudicar a produção espermática, tornando-se uma das causas mais comuns de infertilidade masculina.
Quando investigar?
Um dos principais desafios é que a infertilidade masculina raramente provoca sintomas perceptíveis. Diferentemente de outras condições de saúde, muitos homens mantêm vida sexual normal e não apresentam qualquer sinal que indique alterações na capacidade reprodutiva.
Por isso, a investigação costuma começar apenas após tentativas frustradas de gravidez. Nesses casos, a avaliação especializada é fundamental para identificar possíveis alterações e definir o tratamento mais adequado.
Segundo o urologista e especialista em saúde masculina Dr. Paulo Egydio, a investigação da fertilidade envolve uma análise ampla do paciente e pode incluir exames laboratoriais e de imagem.
Entre os principais exames está a avaliação hormonal, realizada por meio de exames de sangue que medem hormônios relacionados à produção de testosterona e espermatozóides, como LH e FSH.
Outro exame essencial é o espermograma, considerado a principal ferramenta para avaliar a fertilidade masculina. O teste analisa características como volume do sêmen, concentração de espermatozoides, motilidade e morfologia, fornecendo informações importantes sobre a capacidade reprodutiva do paciente.
Em alguns casos, também pode ser indicada a ultrassonografia escrotal para investigação de alterações anatômicas, especialmente a varicocele. O exame ajuda a identificar problemas estruturais que podem estar comprometendo a fertilidade.
Planejamento também é uma questão masculina
O aumento da idade média para ter filhos tem levado especialistas a defenderem uma mudança de perspectiva sobre fertilidade. Se antes a preocupação estava concentrada quase exclusivamente na mulher, hoje há consenso de que a saúde reprodutiva do homem também merece atenção.
Afinal, a capacidade de gerar filhos não depende apenas da produção contínua de espermatozoides. Fatores como idade, estilo de vida e condições médicas podem influenciar diretamente as chances de gravidez e os resultados reprodutivos. Quanto mais cedo essas questões forem avaliadas, maiores tendem a ser as possibilidades de diagnóstico e tratamento.
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Dr. Paulo Egydio
Urologista | PhD pela Universidade de São Paulo (USP)
Especialista em cirurgia reconstrutiva peniana, com foco no tratamento da Doença de Peyronie e na implantação de próteses penianas em casos desafiadores e complexos. Formado pela USP, onde concluiu residência médica e doutorado, complementou sua formação em centros internacionais de excelência, como a Mayo Clinic e a Cleveland Clinic Foundation.
Ao longo de sua carreira, tem se dedicado ao avanço técnico-científico da urologia reconstrutiva, realizando centenas de procedimentos, incluindo cirurgias ao vivo apresentadas em universidades e congressos internacionais. Já proferiu mais de 100 palestras e participou ativamente como debatedor em eventos científicos de destaque.
É autor e coautor de mais de 50 publicações, entre artigos científicos e capítulos de livros, com contribuições relevantes para a padronização e o refinamento das técnicas cirúrgicas aplicadas à saúde sexual masculina."


