O que acontece quando livros pedem tempo num mundo de notificações
Naquela sala de cursinho, eu cheguei a acreditar que os celulares venceriam. De um lado, os alunos com suas telas luminosas, notificações piscando como vaga-lumes elétricos; do outro, eu, segurando um exemplar gasto de I-Juca Pirama e tentando convencer adolescentes de que um poema indígena do século XIX ainda podia dizer algo sobre eles. Parecia desigual. Mas literatura, como aprendi nesses meses, tem a estranha habilidade de ressurgir quando ninguém espera.
Foi assim que o Clube do Livro começou: meio tímido, meio descrente, como o narrador machadiano que observa, sem pressa, a vida alheia em Contos Fluminenses. Aos poucos, porém, fui percebendo que os alunos olhavam para mim e para as obras com a curiosidade desse mesmo narrador irônico — ora para desconfiar, ora para experimentar o sabor de um detalhe escondido. Quando discutimos “Miss Dollar” e “Confissões de uma Viúva Moça”, eles riram do sentimentalismo, estranharam o excesso de decoro e, por fim, reconheceram ali ecos das próprias relações atravessadas por filtros e aparências. Machado, como sempre, pescando ironias em universos que acreditam ser modernos demais para elas.
Mas foi com I-Juca Pirama que algo se deslocou. O grito do guerreiro tupi ecoou como um contraponto às vozes apressadas da internet. Havia honra, pertencimento, identidade — temas que, por mais que se escondam sob avatares e usernames, ainda inquietam qualquer jovem. Vi, naquele dia, alguns celulares sendo empurrados para o canto da mesa: o poema tinha feito seu chamado.
O mergulho seguinte foi mais profundo. Em Úrsula, Maria Firmino dos Reis nos obrigou a olhar para o avesso da história oficial. O silêncio dos subalternizados tornou-se presença. Os alunos hesitaram, se emocionaram, perguntaram. Um deles, sempre disperso, disse que nunca tinha sentido tanta raiva e tanta empatia num mesmo capítulo. A literatura, afinal, é essa arma estranha que não mata ninguém, mas faz todos sentirem o impacto.
E então chegamos a Guimarães Rosa — ou melhor, chegamos a Primeiras Estórias, onde cada frase parece pedir uma espécie diferente de respiração. “O senhor… mire e veja.” Nas discussões sobre “A Terceira Margem do Rio” e “Sorôco, sua mãe, sua filha”, percebi que os alunos paravam, pela primeira vez no ano, para escutar o próprio silêncio. Rosa tem esse poder: desacelera até mesmo quem vive no ritmo frenético das atualizações. Um aluno comentou: “Parece que o texto pensa enquanto a gente lê.” Concordei. Rosa escreve como quem adivinha que o mundo seria dominado por telas, e por isso espalhou pausas para proteger o leitor do excesso.
Água Funda, de Ruth Guimarães, trouxe o contrário: movimento. A oralidade viva das histórias tecidas na roça demonstrou que há mundos inteiros fora do digital — mundos antigos, sim, mas em nada antiquados. Os estudantes riram das personagens, comentaram o modo como o tempo circula no romance, sem cronologia rígida. “Parece um feed, só que mais poético”, disse uma menina. Sorri. Era isso: eles estavam criando pontes entre códigos narrativos tão distantes quanto próximos.
Fiandeira, de Raquel Naveira, foi o fecho perfeito. As discussões sobre memória, mito, identidade cultural e o fio simbólico que atravessa gerações soaram como metáfora do próprio Clube do Livro. Naveira escreve como quem recolhe restos de histórias antigas para tecê-las no contemporâneo. Talvez fosse exatamente isso que estávamos fazendo naquelas tardes: reencontrar, entre as obras obrigatórias, o que restou de nós mesmos.
No fim do ano, enquanto recolhia exemplares riscados, fotocópias amassadas e anotações perdidas em cadernos, pensei no estranho contraste daquele grupo. Vivemos rodeados de telas, mas foi o papel que nos deu um tipo de presença que nenhuma notificação consegue imitar. Cada livro, à sua maneira, ensinou algo: a coragem de Gonçalves Dias, a ironia de Machado, o gesto emancipatório de Maria Firmino, a transcendência rosiana, a oralidade de Ruth Guimarães, a herança poética de Raquel Naveira.
E assim descobri que meus alunos, mesmo imersos no universo digital, ainda são capazes de se deixar fisgar por histórias. Só precisam, talvez, que alguém acenda a primeira luz — não a do celular, mas aquela que nasce devagar, como quando abrimos um livro e o mundo, por alguns minutos, deixa de ser urgente.
Porque, no fundo, toda leitura é isso: um retorno. Não às páginas antigas, mas a nós mesmos, aos sentidos que esquecemos, aos silêncios que evitamos. E, quando percebi, entre risos, sustos e discussões acaloradas, notei que literatura fez sentido para eles. E, como uma boa fiandeira, teceu também um novo sentido para mim.
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