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Preciso te contar uma história Domingo, 01 de Fevereiro de 2026, 13:47 - A | A

Domingo, 01 de Fevereiro de 2026, 13h:47 - A | A

Coluna Preciso te contar uma história

Crônicas do Cotidiano

Por Bruno Andrade

Da coluna Preciso te contar uma história
Artigo de responsabilidade do autor

Uma epopeia urbana em três cantos e um atraso

IA, prompt por Bruno Andrade

ColunaPrecisoTeContarUmaHistoria

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A Odisseia do Domingo Traiçoeiro

Domingo traiçoeiro é aquele que te arranca do lençol quente e te empurra para a arena dos aplicativos. Acordei herói contra a vontade, convocado não por glória, mas por escala. A casa inteira em paz – esposa e filhos devotos ao culto do travesseiro – enquanto eu, mártir do contracheque, encarava o dilema: cama ou plantão? Lembrei do contrato que assinei como quem joga garrafa ao mar… e o mar devolveu escala de fim de semana.

Em gesto nobre – ou suicida –, deixei o carro para a família. Que fossem à igreja interceder por mim, peregrino do transporte alheio. Restou-me o cocheiro digital, esse oráculo pago por quilômetro, que promete conforto e entrega filosofia de boteco.

Canto I – O Cocheiro do Apocalipse

O carro chegou e, com ele, o arauto do mau humor. Nem um bom dia. Só reclamações em cascata: o frio, o calor, o sol que queima, a chuva que “vem aí”. Motoristas assim tratam o clima como inimigo pessoal. Permaneci calado. Quem pega carona em domingo aprende: responder é abrir as portas do inferno.

Seguíamos lentos até que surgiu o tormento épico: uma corrida de rua. Atletas coloridos tomavam a avenida em êxtase fitness. Já fui um deles – otimismo de quem acorda 5h para correr atrás da endorfina. Hoje, prefiro morrer de tédio no sofá. O cocheiro, indignado, bufou:

— Vou cancelar. Vá a pé.

Desci, não por coragem, mas por desistência. Se quisesse suar, estaria entre os corredores berrando “Bora!”. Minha missão era outra: chegar vivo ao relógio de ponto.

Canto II – A Marcha pelo Deserto Urbano

O sol assumiu seu papel de inimigo mitológico. A camisa já suada, colava ao corpo como punição divina. Cada quarteirão valia um lamento. Nem sinal de novo carro. Aplicativo é aliado fiel até o momento em que você mais precisa – então ele desaparece, tal qual promessa eleitoral.

Foi quando o impensável aconteceu: o mesmo cocheiro surgiu novamente, agora insurgente, subindo na calçada para cruzar o bloqueio. Ignorou guarda de trânsito, ignorou atletas, ignorou a própria vida. Passou por mim sem olhar, deixando um “tchau, otário” invisível na fumaça do escapamento.

Canto Final – Moral de Vestiário

Cheguei ao trabalho atrasado, suado e com a dignidade espremida no bolso. Domingo não ofereceu glória, só material de crônica. Porque a verdade é simples: o herói urbano não vence. Sobrevive. Vai a pé, pega chuva, quase briga com desconhecidos – e ainda chega para trabalhar como se nada tivesse acontecido.

Há quem encontre sentido correndo atrás de medalhas. Eu encontrei o meu tropeçando no asfalto: o domingo pode me derrotar, mas será impresso na segunda-feira.

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Bruno Andrade escreve para não discutir com motoristas de aplicativo, domingos e outras forças incontroláveis da vida moderna. Trabalha, cria filhos, chega atrasado quando o destino colabora e acredita que o cotidiano, quando observado com atenção suficiente, sempre rende uma boa crônica — especialmente às segundas-feiras.

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