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ENTREVISTA Sábado, 18 de Maio de 2024, 09:56 - A | A

Sábado, 18 de Maio de 2024, 09h:56 - A | A

Entrevista

Tragédias e a saúde mental

Especialista explica os impactos e traumas causados por esses eventos e como lidar com eles

Renata Santos Portela
Especial para o Capital News

Divulgação

Setembro Amarelo: quem fala sobre tirar a vida deve ser levado a sério

Embora a psicoterapia seja uma ferramenta valiosa para superar impactos emocionais após uma tragédia, é essencial reconhecer que nem todos terão acesso imediato. Portanto, o primeiro passo pode ser buscar apoio em outras fontes disponíveis, como grupos de apoio, líderes religiosos, voluntários locais ou serviços de saúde comunitários.

Como você lida com tragédias? A pandemia, por exemplo, você se lembra como ficou sua mente diante da crise de saúde causada pelo vírus? Estudiosos dizem que há um aumento de transtornos emocionais como depressão, ansiedade e estresse em pessoas e populações que passam por situações de crise.

@defesacivilpoa - via Fotos Publicas

Tragédia climática afeta saúde mental de profissionais e voluntários

Os alagamentos nos municípios do Rio Grande do Sul são um exemplo vívido de tragédia que afeta diretamente a saúde mental

Neste momento o mundo assiste paralisado o desastre ambiental que assola os municípios do Rio Grande do Sul. Milhares e pessoas estão desabrigadas e mais de cem perderam entes queridos. O que fazer diante dessa situação? Como lidar com as emoções? Para responder esses e outros questionamentos o Capital News conversou com o psicólogo Thiago Ayala.

Capital News: Podemos até sobreviver a uma catástrofe, mas dificilmente sairemos "inteiros”, pode-se dizer que essa frase é uma realidade?

Thiago Ayala: Sim, essa frase reflete uma realidade. Quando passamos por uma tragédia, as experiências vividas podem nos transformar de maneiras profundas. Não saímos “inteiros” no sentido de voltarmos exatamente como éramos antes, pois eventos traumáticos muitas vezes deixam marcas emocionais. No entanto, isso não significa que não podemos nos reconstruir e encontrar novos significados e forças em nossas vidas.

Capital News: Os alagamentos nos municípios do Rio Grande do Sul é exemplo de tragédia que impacta diretamente a saúde mental. Por que isso acontece?

Alagamentos nos municípios do Rio Grande do Sul são um exemplo vívido de tragédia que afeta diretamente a saúde mental

Thiago Ayala: Os alagamentos nos municípios do Rio Grande do Sul são um exemplo vívido de tragédia que afeta diretamente a saúde mental das pessoas impactadas. Isso ocorre devido às perdas devastadoras, que vão desde a destruição de lares e bens materiais até a perda de entes queridos, gerando um profundo estresse emocional e uma sensação de desamparo.

Adicionalmente, a insegurança em relação ao futuro, a interrupção da vida cotidiana e a falta de acesso a recursos básicos como alimentos e água potável aumentam a ansiedade e o medo. O trauma psicológico também é uma consequência comum, manifestando-se através de sintomas como flashbacks, pesadelos e ansiedade persistente, afetando a qualidade de vida das pessoas mesmo após o evento ter passado.

Esses fatores combinados contribuem para um cenário de profundo sofrimento emocional que requer suporte e intervenção para promover a recuperação e o bem-estar psicológico das comunidades afetadas.

Capital News: Há uma sequência lógica de emoções daquele que é exposto a uma tragédia? Estudiosos explicam que, em um primeiro momento, emoções negativas intensas como terror, raiva. Com o tempo, esses sentimentos viram traumas ou emoções como tristeza, é real?

Thiago Ayala: Sim, há uma sequência comum de emoções após uma tragédia. Inicialmente, as pessoas podem sentir terror, choque e raiva. Esses sentimentos são reações naturais ao perigo e à perda. Com o tempo, essas emoções podem se transformar em tristeza, desânimo ou até mesmo traumas psicológicos, como o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).

A transição dessas emoções pode variar de pessoa para pessoa, mas é comum que, com o passar do tempo, a intensidade dos sentimentos imediatos diminua e surjam outras formas de sofrimento emocional.

Capital News: É possível afirmar que há um aumento de transtornos emocionais como depressão, ansiedade e estresse em populações que passam por situações de crise? Se sim, por quê?

Thiago Ayala: Sim, é possível afirmar que há um aumento de transtornos emocionais em populações que passam por situações de crise. Isso ocorre porque tais eventos colocam as pessoas em situações de extremo estresse e incerteza.

Primeiramente, eventos traumáticos como desastres naturais provocam uma sobrecarga emocional significativa, levando a um aumento do estresse e da ansiedade diante da incerteza e do caos. Além disso, a perda de entes queridos, de lares e de meios de subsistência pode desencadear ou agravar sintomas de depressão, levando a um aumento da prevalência desse transtorno. A falta de acesso a recursos básicos, como alimentos e abrigo, e a dificuldade de reconstrução após o desastre também contribuem para o aumento do sofrimento psicológico.

Esses fatores combinados criam um ambiente propício para o surgimento e a intensificação de transtornos emocionais, destacando a importância de intervenções psicológicas e de apoio emocional para as comunidades afetadas.

Capital News: Difíceis de curar, os impactos psicológicos de um desastre natural são como “feridas abertas na mente”, e como toda ferida, precisa de tratamento. As pessoas se dão conta disso ou nem sempre isso acontece?

Thiago Ayala: Nem sempre as pessoas se dão conta de que precisam de tratamento para os impactos psicológicos de um desastre natural. Muitas vezes, as pessoas estão focadas em necessidades imediatas, como encontrar abrigo e comida, e podem não perceber a extensão do impacto emocional.

Além disso, há um estigma em torno da saúde mental que pode impedir as pessoas de buscar ajuda. É essencial que haja conscientização e acesso a serviços de apoio psicológico para que essas “feridas abertas na mente” possam ser tratadas adequadamente.

Capital News: Como cuidar da saúde mental pós tragédia?

Thiago Ayala: Cuidar da saúde mental após uma tragédia tão devastadora como esta, onde até as necessidades básicas estão comprometidas, é um grande desafio. Em uma situação em que a cidade foi arrasada e recursos essenciais como alimentação, sono e exercícios físicos estão praticamente impossibilitados, encontrar formas de buscar algum alívio emocional pode parecer quase inatingível.

No entanto, mesmo diante dessas adversidades, é crucial reconhecer e aceitar as emoções intensas que surgem, buscar conexões humanas para compartilhar experiências e sentimentos, e procurar ajuda psicológica sempre que possível.

A psicoterapia pode oferecer um momento de calma em meio ao caos, enquanto o voluntariado e a ajuda mútua podem proporcionar um senso de propósito e solidariedade. Mesmo nos momentos mais sombrios, cada pequeno passo em direção ao autocuidado e à busca de apoio pode fazer a diferença na jornada de recuperação emocional.

Capital News: A psicoterapia é o primeiro passo para conseguir superar o luto, o estresse pós-traumático e outros aspectos após tragédias sobre a saúde mental.

Embora a psicoterapia seja uma ferramenta valiosa para superar o luto, o estresse pós-traumático e outros impactos emocionais após uma tragédia, é essencial reconhecer que nem todos terão acesso imediato a esse recurso. Portanto, o primeiro passo pode ser buscar apoio em outras fontes disponíveis, como grupos de apoio, líderes religiosos, voluntários locais ou serviços de saúde comunitários

Thiago Ayala: Embora a psicoterapia seja uma ferramenta valiosa para superar o luto, o estresse pós-traumático e outros impactos emocionais após uma tragédia, é essencial reconhecer que nem todos terão acesso imediato a esse recurso. Portanto, o primeiro passo pode ser buscar apoio em outras fontes disponíveis, como grupos de apoio, líderes religiosos, voluntários locais ou serviços de saúde comunitários. Esses recursos podem oferecer um espaço seguro para compartilhar experiências, encontrar conforto e obter orientação prática sobre como lidar com as emoções.

Além disso, é importante destacar que a psicoterapia e os serviços de emergência oferecidos pela psicologia desempenham um papel crucial na recuperação emocional após uma tragédia. Embora o acesso imediato a esses recursos possa ser limitado, é essencial estar ciente de sua disponibilidade e buscar assistência assim que possível. Os profissionais de saúde mental podem oferecer apoio especializado e estratégias eficazes para lidar com o trauma e o sofrimento emocional. Esses recursos combinados podem ajudar a promover a resiliência e o bem-estar emocional durante o processo de recuperação após uma tragédia.

Capital News: Quais dicas você deixa.

Thiago Ayala: Considerando o cenário de calamidade, onde recursos e condições são limitados, é importante focar em estratégias práticas e acessíveis para cuidar da saúde mental:

• Compartilhe histórias: Trocar experiências com outros sobreviventes pode proporcionar conforto e senso de comunidade. Compartilhar histórias de superação e esperança pode fortalecer os laços emocionais e oferecer suporte mútuo.
• Pratique técnicas de relaxamento: Mesmo em condições adversas, é possível praticar técnicas simples de relaxamento, como respiração profunda, alongamentos suaves ou visualizações tranquilas. Essas práticas podem ajudar a reduzir a ansiedade e promover um senso de calma.
• Fique conectado: Utilize meios de comunicação disponíveis, como rádio comunitária ou mensagens escritas, para se manter informado sobre os esforços de resgate e ajuda. Manter contato com familiares e amigos, mesmo que seja por breves momentos, pode trazer conforto e segurança emocional.
• Crie rotinas: Mesmo em situações caóticas, tentar estabelecer rotinas diárias simples pode trazer uma sensação de normalidade e controle. Isso pode incluir horários para refeições, momentos de descanso e atividades de lazer em grupo.
• Busque apoio espiritual: Se apropriado, busque conforto em práticas espirituais ou religiosas. Momentos de oração, meditação ou reflexão podem oferecer conforto e esperança em tempos difíceis.
• Ajude os outros: Contribuir para o bem-estar dos outros, mesmo em pequenas ações, pode trazer uma sensação de propósito e significado. Ofereça apoio emocional, compartilhe recursos ou participe de esforços de ajuda mútua sempre que possível.
• Procure ajuda profissional quando disponível: Mesmo em situações extremas, busque ajuda profissional sempre que possível. Muitas vezes, equipes de emergência e organizações humanitárias oferecem serviços de apoio psicológico em áreas afetadas por desastres. Não hesite em procurar ajuda se estiver enfrentando dificuldades emocionais significativas.

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