A tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre o etanol brasileiro deve provocar impactos pontuais para empresas exportadoras, mas não deve comprometer o desempenho da economia brasileira como um todo. A avaliação é de especialistas ouvidos pela Agência Brasil, que apontam o caráter político da medida e lembram que o mercado norte-americano responde por menos de 16% das exportações brasileiras do biocombustível.
Embora os Estados Unidos sejam o segundo principal destino do etanol nacional, a maior parte das vendas externas é direcionada a outros países. Em 2025, o Brasil exportou cerca de 1,6 milhão de metros cúbicos de etanol, gerando quase US$ 1 bilhão em receita. Desse total, apenas 253 mil metros cúbicos, equivalentes a US$ 163 milhões, tiveram como destino o mercado norte-americano.
Para o professor do Instituto de Economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Luiz Carlos Delorme Prado, a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras já vinha diminuindo nos últimos anos. Segundo ele, apesar dos prejuízos para setores específicos, a medida não representa um impacto significativo para a economia nacional.
Os especialistas avaliam ainda que o Brasil deve intensificar a busca por novos mercados consumidores, reduzindo a dependência dos Estados Unidos. Segundo Delorme, o ambiente comercial norte-americano perdeu previsibilidade, tornando arriscados investimentos voltados exclusivamente para aquele mercado.
Além da diversificação dos destinos, a competitividade da produção brasileira é apontada como uma vantagem. O professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e coordenador do Centro de Ciência para o Desenvolvimento do Etanol, Luis Augusto Barbosa Cortez, destaca que fatores como clima favorável, maior produtividade agrícola e menores custos de produção fortalecem a posição do Brasil no mercado internacional.
Atualmente, cerca de 75% do etanol produzido no país tem origem na cana-de-açúcar e 25% no milho. A participação do milho, no entanto, vem crescendo e pode alcançar 30% da produção nacional até 2030. Segundo Cortez, a possibilidade de produzir duas safras anuais e a integração entre agricultura e pecuária ampliam a competitividade do setor brasileiro.
Para o professor do Instituto de Relações Internacionais da UnB (Universidade de Brasília), Niels Soendergaard, as medidas adotadas pelo governo norte-americano possuem motivação predominantemente política, apesar da justificativa técnica apresentada pelos Estados Unidos.
O governo norte-americano afirma que a tarifa foi aplicada após investigação sobre supostas práticas comerciais consideradas prejudiciais à economia dos EUA. Entre os argumentos estão questões relacionadas ao acesso ao mercado brasileiro de etanol, comércio digital, propriedade intelectual e desmatamento ilegal. O governo brasileiro rejeita as alegações e sustenta que a investigação não está respaldada pelas normas da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Entidades do setor também contestaram a decisão. A Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia) e a Unem (União Nacional do Etanol de Milho) afirmam que a política brasileira segue as regras da OMC e que a redução das importações de etanol norte-americano decorre principalmente da expansão da produção nacional, especialmente do etanol de milho. Ambas defendem que eventuais divergências comerciais sejam resolvidas por meio do diálogo e da negociação entre os dois países.
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