Ginecologistas alertam para os riscos de normalizar a dor e explicam quando investigar condições como endometriose, miomas e infecções pélvicas
Durante o ciclo menstrual, muitas mulheres convivem com dores no baixo ventre que vêm junto do sangramento. Essa sensação, que varia de um leve incômodo a cólicas fortes, é considerada por muita gente como parte natural da vida feminina. Mas nem sempre deveria ser. Quando a dor impede atividades cotidianas, afeta o sono ou exige remédios fortes com frequência, é um sinal de que algo pode estar errado.
De acordo com a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), a dor menstrual não deve ser aceita como um sofrimento obrigatório do ciclo. Em publicação oficial, a entidade reforça que a cólica não é normal quando interfere na rotina, causa náusea ou faz a paciente faltar ao trabalho ou à escola. “Menstruar com dor não deve fazer parte da realidade da mulher”, destaca a nota.
O problema é mais comum do que se imagina. Levantamentos indicam que entre 40% e 70% das mulheres em idade reprodutiva relatam algum grau de cólica, mas cerca de 10% sofrem com dores consideradas incapacitantes.
Apesar da alta prevalência, muitas demoram a procurar ajuda. Em parte, isso se deve à cultura de resistência que ainda envolve o tema: há quem ache que “é só uma fase do mês” e aprende a conviver com a dor por anos.
O que está por trás da dor fora do comum?
A dor menstrual costuma surgir a partir das contrações do útero para eliminar a camada interna que se desprende durante o sangramento. Esse processo, quando ocorre de forma mais intensa, reduz o fluxo sanguíneo local e gera as chamadas cólicas. Quando isso acontece de forma leve e passageira, é considerado normal. Mas dores muito fortes ou persistentes podem ter uma explicação clínica por trás.
Em entrevista publicada no portal TV Jornal, a ginecologista Liliane Diefenthaeler Herter afirma que a cólica passa a ser anormal quando a mulher deixa de fazer atividades básicas. “Perder aula, ficar pálida, suar frio ou vomitar por causa da dor não é normal”, afirma. Nessas situações, o ideal é investigar.
Entre as causas mais comuns, estão doenças como endometriose, miomas, adenomiose e infecções pélvicas. A endometriose, por exemplo, ocorre quando células do endométrio crescem fora do útero, atingindo órgãos como ovários, bexiga e intestino. Essa condição, além de provocar cólicas intensas, também pode afetar a fertilidade.
Em entrevista ao portal do Dr. Drauzio Varella, o ginecologista Maurício Simões Abrão explica que cerca de metade das adolescentes com dores menstruais muito fortes pode estar lidando com endometriose.
O diagnóstico, porém, costuma demorar. Em média, mulheres levam até uma década para obter a confirmação da doença. Durante esse tempo, enfrentam dores mensais que muitas vezes são tratadas apenas com analgésicos comuns, sem resolução do problema.
Os miomas uterinos (tumores benignos que crescem no útero) também podem causar cólicas mais intensas e sangramento aumentado. Já a adenomiose, quando o tecido do endométrio penetra na parede do útero, gera dores prolongadas.
Outro alerta é para a doença inflamatória pélvica, causada por infecções sexualmente transmissíveis, como clamídia ou gonorreia, que, além da dor, pode vir acompanhada de febre e corrimento.
Quando o tratamento envolve hormônios
A partir do momento em que se identifica a causa da dor, o tratamento pode variar bastante. Casos leves podem ser controlados com anti-inflamatórios e ajustes no estilo de vida, como prática regular de exercícios físicos e redução do estresse. Já condições mais complexas, como endometriose e adenomiose, costumam exigir tratamento hormonal.
Neste contexto, o anticoncepcional costuma ser uma ferramenta importante. “Para casos iniciais de endometriose, é possível controlar os sintomas com pílulas combinadas ou compostas apenas por progesterona”, conclui o ginecologista Maurício Simões Abrão.
O objetivo do uso é bloquear a menstruação e, com isso, interromper a dor cíclica provocada pela condição. Em muitas pacientes, o método também reduz o volume do fluxo e a frequência das cólicas.
Estudo publicado no periódico Human Reproduction, baseado em dados suecos, apontou que mulheres que usavam pílula relatavam dores menstruais menos intensas. A redução da dor foi observada inclusive em adolescentes, o que mostra que o recurso pode ser positivo, quando bem indicado.
Vale lembrar que o uso de anticoncepcional deve sempre partir de recomendação médica. Cada paciente precisa de uma avaliação individual, já que o tipo de hormônio, a via de administração e o histórico de saúde influenciam diretamente nos resultados e riscos envolvidos.