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Economia Sexta-feira, 05 de Dezembro de 2008, 13:52 - A | A

Sexta-feira, 05 de Dezembro de 2008, 13h:52 - A | A

Crise afeta setor de recicláveis em Dourados

Da redação (LM)

O efeito da crise financeira global atingiu em cheio os catadores de materiais recicláveis de Dourados, que vão passar um dos piores Natais dos últimos anos. O grande problema é que o preço dos produtos vendidos às empresas recolhedoras caiu pela metade, reduzindo o salário dos trabalhadores em até 50%.

Com isto, os estoques aumentaram nas cooperativas. Somente na Agecold (Associação dos Agentes Ecológicos de Dourados), entidade vinculada a Prefeitura e que recebe apoio de vários empresários locais, o estoque de papelão chega a sete toneladas. O problema ainda se agrava porque o mercado está saturado e não há para onde encaminhar o produto.

"O nosso forte é o papel, que representa 60% das 40 toneladas arrecadadas por mês. Estamos com os fardos preparados para serem enviados às empresas que compram os reciclados, mas está difícil achar compradores", disse a coordenadora da Agecold, Ivete Pedroso.
Ela explica que nos últimos três meses o valor dos produtos pagos aos trabalhadores despencou, gerando reclamações dos 55 catadores da Agecold, que ainda emprega diretamente 15 pessoas para a seleção dos materiais. "É uma crise geral. Em todo o país caiu quase pela metade o preço dos recicláveis, porém Mato Grosso do Sul é um dos piores para o comércio dos produtos", comenta.

Valdecir da Silva trabalha como catador de recicláveis há três anos. Sem condições de exercer outra atividade por causa das seqüelas que deixaram as articulações do lado esquerdo do corpo comprometido, buscou neste trabalho a chance de aumentar a renda da aposentadoria, que é contada para pagar os medicamentos contínuos. Ele diz que nunca viu um momento tão ruim como esse.

"Está muito difícil, mas eu não posso desanimar porque essa é a única renda extra que eu tenho, além da aposentadoria", frisa. Sempre de bom-humor, ele percorre as principais avenidas do centro da cidade em busca dos materiais.

A mesma situação passa o catador Reinaldo Andrade. Com seis carrinhos para recolher os produtos, deixa cada um deles em frente as lojas do comércio da região central. "Grande parte dos materiais recolhidos é papelão que antes ele vendia a R$ 0,26 o quilo. Agora está, no máximo, a R$ 0,10", comenta. Confiante, ele disse que assim como outros setores que tiveram em baixa e se recuperaram, o do reciclável vai melhorar nos próximos meses. "Quem ganhava em média R$ 500 passou a ganhar R$ 250. Mais tenho fé que isso vai passar".

FALTA DE APOIO
A coordenadora da Agecold disse que a associação está vivendo a maior crise já enfrentada, que agrava ainda mais porque Dourados não tem empresas de transformação de recicláveis. Ela informa que por dia são despejados no aterro sanitário da cidade cerca de 30 toneladas de produtos por mês. Todos esses materiais poderiam ser reaproveitados.

"Falta maior colaboração das empresas que deveriam separar os materiais", disse ela. Prova disso são os hospitais. "A maioria dos lixos hospitalares são recicláveis. Vão ao lixo muitos plásticos e garrafas que podem ser reaproveitados, mas nenhum hospital quis fazer parceria com a gente", questionou, dizendo que já procurou todas as unidades hospitalares da cidade, porém nunca obteve retorno.

Graças a parcerias de alguns condomínios da cidade e de empresários locais, muitos materiais são separados para a Agecold fazer a coleta. "Temos muitos parceiros, mais ainda é pouco. Tem muito lixo sendo desperdiçado, sendo que na verdade não é lixo. Podemos reaproveitá-los", explica.

Situação preocupante também vive os proprietários de pequenos comércios de compra e venda de recicláveis. João Rodrigues compra vidros de vários catadores da cidade. "Eu compro a R$ 0,06 o quilo e revendo em São Paulo por R$ 0,16. Não tenho lucro nenhum porque na venda é embutida o frete mais o ICMS", reclama. "O governo deveria apoiar o comércio dos recicláveis. Do jeito em que está vamos à falência", reclama. Ele ainda disse que mercado não falta porque em todos os cantos se encontra materiais para recolher, mas a maior dificuldade é que o Estado não concentra empresas de transformação.

PREÇOS
Os valores dos recicláveis pagos aos catadores em Dourados variam de acordo com a empresa recolhedora. Na Agecold, por exemplo, o papelão caiu de R$ 0,28 para R$ 0,12. O alumínio de R$ 3,50 a R$ 2,50. O ferro despencou de R$ 0,37 para R$ 0,15.

O único produto que manteve estável foi a garrafa pet. Ivete Pedroso disse que isso acontece porque o produto é reciclado em grande escala por setores da construção civil, têxtil, entre outras indústrias de transformação, o que faz esse mercado se manter sempre em alta. (Dourados Agora)

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