A evolução amplia transparência de dados e facilitou a oferta de operações como empréstimo com garantia de veículo, alterando o cenário de crédito no Brasil
O avanço do Open Finance no Brasil tem mudado profundamente a forma como instituições financeiras analisam riscos e oferecem crédito. Desde a implementação das primeiras fases do sistema, em 2021, e sua consolidação até 2026, consumidores e empresas passaram a ter maior controle sobre seus dados financeiros, permitindo que sejam compartilhados de forma segura entre diferentes instituições mediante consentimento. Essa transformação não apenas favoreceu maior concorrência entre bancos e fintechs, como também abriu caminho para produtos de crédito mais acessíveis e customizados, como o crédito com garantia.
A principal proposta do Open Finance é derrubar silos de informação e reduzir assimetrias no mercado de crédito. Ao permitir que dados de contas correntes, investimentos, pagamentos, histórico de transações e comportamento financeiro sejam compartilhados com provedores autorizados, o sistema amplia a visibilidade do perfil de risco do consumidor. Isso tem impacto direto na precificação de crédito e na capacidade de oferta de produtos mais atrativos, especialmente para quem enfrenta restrições tradicionais de score ou histórico de inadimplência.
Segundo dados do Banco Central, desde a implementação do Open Finance, o número de instituições participantes cresceu de algumas dezenas para mais de cem autorizadas e integradas ao sistema, incluindo bancos tradicionais, bancos digitais e fintechs especializadas em crédito. Essa ampliação criou um ambiente em que os consumidores conseguem negociar com múltiplos provedores com menor atrito e ganhar acesso a propostas de crédito mais competitivas, baseadas em informações reais de comportamento e capacidade de pagamento.
Transparência e concorrência
Antes do Open Finance, grande parte das análises de crédito dependia de informações restritas ao histórico em um único banco ou à pontuação de crédito em serviços como o SCR (Sistema de Informações de Crédito) e o score de bureaus de crédito. A falta de integração gerava oferta limitada e pouco personalizada de empréstimos, especialmente para perfis considerados de risco moderado.
Com a expansão do Open Finance, provedores conseguem acessar dados autorizados pelos clientes e construir um panorama mais amplo e preciso das finanças pessoais. Isso significa que consumidores com histórico de movimentações consistentes, mesmo que tenham passado por dificuldades pontuais, conseguem apresentar um quadro de renda e comportamento financeiro que vai além das restrições cadastrais tradicionais.
O impacto dessa mudança é particularmente visível em produtos em que a garantia real é um elemento central da operação. Ao integrar dados de diversas fontes, as instituições conseguem mensurar com mais precisão a saúde financeira de alguém que possui ativos quitados, criando condições para oferta de crédito estruturado.
Crédito com garantia em foco
Dentro desse cenário, cresce a relevância do empréstimo com garantia de veículo como alternativa para crédito mais barato e com maior probabilidade de aprovação. Esse tipo de operação, em que o tomador oferece um veículo quitado como lastro para o crédito, tem ganhado tração porque reduz o risco para o credor e permite taxas de juros inferiores às praticadas em empréstimos sem garantia.
Dados de mercado indicam que operações de crédito com garantia, em especial as lastreadas em veículos, tiveram crescimento significativo nos últimos dois anos, impulsionadas tanto pela busca dos consumidores por alternativas mais acessíveis quanto pelo maior conhecimento das instituições sobre o perfil financeiro dos clientes, viabilizado pelo Open Finance. A capacidade de acessar informações consolidadas de movimentações bancárias e comportamento de pagamentos contribuiu para que mais credores se sentissem confortáveis em ofertar esse tipo de crédito, mesmo para consumidores com histórico de inadimplência anterior.
Redução de custo e maior inclusão
A lógica por trás do crescimento do crédito com garantia está diretamente ligada à mitigação de risco. Quando um bem, como um veículo quitado, é utilizado como garantia, o credor pode repassar ao tomador taxas menores, prazos mais longos e condições de pagamento mais flexíveis, porque a operação tem lastro real em caso de inadimplemento.
Relatórios do Banco Central sobre crédito consignado e crédito com garantia mostram que as instituições financeiras estão ampliando suas carteiras nessa direção, com carteiras que trazem volume crescente de operações garantidas. Isso ocorre em paralelo à análise mais refinada de risco proporcionada pelas informações oriundas do Open Finance, que permitem avaliar não apenas o patrimônio, mas também a capacidade de pagamento real. A combinação dessas duas frentes cria alternativas que antes eram restritas a nichos muito específicos de superavitários e empresas de grande porte.
Tendências até 2026
Espera-se que, em 2026, o uso de dados compartilhados por meio do Open Finance para análise de crédito seja ainda mais sofisticado. Provedores de crédito, inclusive fintechs, vêm investindo em modelos de avaliação baseados em machine learning e inteligência artificial que cruzam múltiplas variáveis, desde hábitos de consumo até padrões de circulação de recursos em contas digitais. O resultado tende a ser uma oferta de produtos ainda mais personalizada, com possibilidade de precificação dinâmica de juros e adaptação das condições do contrato ao perfil do tomador.
Para o mercado, isso significa não apenas mais concorrência, mas também maior inclusão financeira. Consumidores que antes eram considerados de risco ou tinham acesso limitado a crédito podem, com base em dados mais completos, negociar melhores condições, inclusive por meio de produtos como o empréstimo com garantia de veículo, que combina segurança para o credor e custo menor para o tomador.
A trajetória do Open Finance até 2026 sugere uma convergência entre transparência, tecnologia e crédito responsável. Para os consumidores, a chave está em entender como seus dados podem ser usados de forma ética para melhorar condições de acesso a crédito e negociar com múltiplos provedores. Para as instituições financeiras, a aposta está em construir modelos de risco mais robustos e aproveitar o potencial de ativos garantidos para ampliar a oferta de crédito de forma sustentável.

