Impulsionada pelo avanço das mulheres no guidão e pela consolidação dos serviços de entrega, a comercialização de motocicletas ultrapassou a de automóveis, marcando uma virada cultural e financeira inédita no setor automotivo nacional
A paisagem das ruas brasileiras mudou e os números oficiais agora confirmam essa transformação. Pela primeira vez na história, o mercado de motocicletas superou o de carros no Brasil. Segundo dados da Abraciclo, o setor celebrou a venda de 2,1 milhões de unidades em 2025, um salto de 17,1% em relação ao ano anterior. Enquanto isso, o emplacamento de automóveis ficou em 1,9 milhão, de acordo com a Fenabrave.
Essa explosão não aconteceu da noite para o dia. Em apenas quatro anos, o volume de motos comercializadas quase dobrou, saltando de 1,1 milhão em 2021 para o patamar recorde atual. O protagonismo absoluto fica com os modelos de baixa cilindrada, que representam 77% da produção nacional, confirmando a busca do brasileiro por agilidade e economia.
Se antes o universo das duas rodas era predominantemente masculino, o cenário atual é de diversidade. O público feminino é um dos grandes motores desse crescimento. Dados da Senatran revelam que 10 milhões de mulheres já possuem habilitação na categoria A, um crescimento robusto de 66% na última década.
O fenômeno das entregas por aplicativo, que começou a ganhar corpo na década passada, atingiu sua maturidade máxima. Se em 2012 o Ipea contabilizava pouco mais de 50 mil profissionais no setor, hoje a Cebrap aponta uma legião de mais de 455 mil entregadores cruzando as cidades.
A escolha pela moto é, acima de tudo, matemática. Manter uma motocicleta custa, em média, R$ 763 mensais para quem trabalha 40 horas semanais. Para o motorista de carro, esse custo dispara para R$ 2.462. Essa busca por custo-benefício tem aquecido mercados regionais específicos; a procura por uma moto seminova RJ, por exemplo, reflete a estratégia de muitos trabalhadores para fugir dos preços elevados dos veículos zero quilômetro e dos custos de manutenção de carros populares.
Entretanto, essa economia tem seu preço na folha de pagamento:
Ganho médio (moto): R$ 4.037 (em plena atividade) a R$ 2.669 (com ociosidade).
Ganho médio (carro): R$ 5.058 (em plena atividade) a R$ 3.083 (com ociosidade).
Apesar da popularização, o seguro continua sendo um pedágio caro para o motociclista. Segundo a FenSeg, as apólices para quem usa a moto para trabalho podem ser até 50% mais caras do que o uso comum. Para uma Honda CG 160, a queridinha das ruas, o valor do seguro pode chegar a R$ 5.300, um investimento pesado que reflete o risco e a exposição desses profissionais no trânsito.
O recorde de 2025 não é apenas um dado estatístico; é o retrato de um Brasil que busca eficiência e baixo custo, mesmo diante de desafios de segurança e remuneração.

