A música diz: “Sonhar não custa nada…”
E, ao ouvir o anúncio do governo de que pretende zerar a fila do INSS até outubro, muitos servidores e segurados ficam justamente com essa sensação: a de um sonho distante da realidade enfrentada diariamente nas agências e nos sistemas da Previdência Social.
Hoje, a fila do INSS já ultrapassa os 2,6 milhões de requerimentos. O ministro da Previdência afirma que o tempo médio de espera caiu de 81 para 66 dias e que um novo pacote de medidas será anunciado para acelerar as análises.
Mas fica a pergunta: como zerar uma fila dessa dimensão sem enfrentar os problemas estruturais do INSS?
Será por mágica?
Será apertando um botão na Dataprev?
Ou concedendo benefícios sem a devida análise técnica feita por servidores habilitados e concursados?
A realidade é que o INSS sofre há anos com a falta de valorização dos servidores, déficit de pessoal, sucateamento das agências e sistemas que frequentemente apresentam falhas e instabilidades.
Os dirigentes parecem esquecer que a concessão de benefícios previdenciários exige responsabilidade, análise documental, conhecimento técnico e experiência. Previdência não se faz apenas com discursos políticos ou promessas de curto prazo
Sem concurso público, sem recomposição salarial digna e sem condições adequadas de trabalho, qualquer promessa de “zerar fila” tende a ficar apenas no campo da narrativa.
Hoje, milhares de servidores convivem com:
• salários defasados;
• sobrecarga de trabalho;
• adoecimento físico e mental;
• plano de saúde cada vez mais caro;
• pressão por produtividade;
• e bônus que muitos consideram insuficiente diante da realidade enfrentada.
Enquanto isso, a população segurada sofre aguardando aposentadorias, benefícios por incapacidade, pensões e assistências essenciais para sua sobrevivência.
E é importante lembrar a dimensão do que representa a Previdência Social brasileira.
A Previdência brasileira é considerada uma das maiores estruturas de proteção social do mundo e a maior distribuidora de renda do país. São mais de 40 milhões de segurados atendidos em todos os municípios brasileiros, em um país de dimensões continentais.
Há mais de 100 anos, a Previdência arrecada e paga benefícios regularmente, movimentando cerca de R$ 1 trilhão por ano na economia nacional, sustentando famílias, pequenos municípios e a própria atividade econômica em diversas regiões do Brasil.
Infelizmente, o sistema perdeu parte importante da sua estrutura de fiscalização e recuperação de créditos. Muitos fiscais migraram para a Receita Federal e procuradores foram incorporados à AGU, reduzindo a capacidade de cobrança dos grandes inadimplentes da Previdência.
Além disso, especialistas destacam que o sistema urbano possui características superavitárias, enquanto o maior desafio estrutural está na Previdência Rural, que exige tratamento diferenciado e responsabilidade social do Estado brasileiro.
O que falta não é discurso.
O que falta é gestão, planejamento, compliance e fortalecimento institucional.
Uma alternativa viável seria a adoção emergencial de medidas estruturantes, como:
• realização urgente de concurso público;
• valorização da carreira do Seguro Social como carreira típica de Estado;
• modernização responsável dos sistemas;
• melhoria das condições de trabalho;
• fortalecimento dos mecanismos de compliance e gestão;
• e até o aproveitamento temporário de servidores aposentados do INSS para auxiliar na redução da fila até a chegada de novos concursados.
Porque não adianta apenas “robotizar” processos sem garantir qualidade, segurança e responsabilidade técnica.
O servidor do INSS não é o problema.
O servidor sempre foi parte da solução.
Todos temos o mesmo objetivo: um INSS forte, respeitado e eficiente. Um INSS que volte às páginas sociais pelos serviços prestados à população — e não às páginas policiais ou às manchetes sobre filas intermináveis.
Os segurados merecem respeito. Afinal, contribuíram a vida inteira esperando ter dignidade na hora em que mais precisam da Previdência Social.
Ministro, os servidores também sonham com o fim das filas.
Mas isso exige gestão séria, diálogo com quem conhece Previdência há décadas e valorização de quem sustenta diariamente o atendimento ao cidadão brasileiro:o servidor do INSS.
Sonhos deixamos para Fernando Pessoa e Mário Quintana.
No Brasil, especialmente na Previdência, são necessários: responsabilidade, gestão e compromisso com a população.
Estamos à disposição.
Chama que eu vou!
*Paulo César Régis de Souza
Vice-presidente executivo da Associação Nacional dos Servidores Públicos, da Previdência e da Seguridade Social – Anasps.
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