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Domingo, 24 de Abril de 2022, 08h:05
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“A gente nunca acha que a doença vai cair na nossa casa, ela está sempre na casa do vizinho”

Bacharel em Direito, viu no mundo dos pets a saída para enfrentar a doença do pai e ajudar a família

Vivianne Nunes
Especial para o Capital News

Arquivo pessoal

“A gente nunca acha que a doença vai cair na nossa casa, ela está sempre na casa do vizinho”

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Kelly Mont´Alvão, 43 anos, é uma mulher como tantas outras, que sonha, luta, corre atrás e que teve seus sonhos abreviados por situações que fugiram ao seu controle. Com a reviravolta da vida, ela viu no mundo dos pets uma maneira de alimentar um amor pelos animais e manter o equilíbrio em casa. Hoje vamos contar para você essa história de pedras no caminho, mas também de volta por cima.

Arquivo pessoal

“A gente nunca acha que a doença vai cair na nossa casa, ela está sempre na casa do vizinho”

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Formada em Turismo e em Direito, com experiência vasta na área do mercado imobiliário, ela se viu sem chão quando descobriu que seu pai, aos 60 anos, era paciente de Alzheimer. De lá para cá, muitos anos se passaram e hoje ele vive totalmente dependente dos cuidados dela e da mãe, dona Aidir Ramalho Mont' Alvão, 67 anos.


E é ela quem conta, de maneira especial ao Capital News, essa história de surpresas, dor e superação.

“Os sintomas começaram a surgir com 55 anos, mas a gente não sabia. Descobrimos que a doença só começa a apresentar sintomas nítidos após cinco anos”. E foi aos 60 que ela e a família tiveram a certeza do diagnóstico.

Antes disso, as pessoas comentavam, mas a família acreditava ser apenas uma falta de atenção devido à perda auditiva. É que quando criança, o _seo_ Arnaldo Pinheiro Mont´Alvão, 72 anos, teve os dois tímpanos perfurados e por isso elas não perceberam logo de início.

“Foi quando ele começou a apresentar sinais de esquecimento, coisas como não dar descarga após usar o vaso sanitário, ou pegar todas as chaves que encontrava e colocar no bolso, celular. Resolvemos levá-lo a um neurologista que fez alguns testes rápidos no consultório. Ele fez perguntas como onde ele havia nascido, se era casado, se tinha filhos, quantos eram, o nome deles, apontar o rodapé, interruptor, coisas do nosso dia a dia de imobiliária. Ele respondeu todas erradas. Minha mãe começou a chorar e eu comecei a rir de nervoso. Quem ri demais é desespero”, relatou.

“Eu não tinha tempo para enxergar o meu pai”
“Fazia faculdade de Direito e assumi a imobiliária com ele. Eu não tinha tempo para enxergar o meu pai”, lamenta ao relembrar o início de tudo.

“A nossa vida foi de virar a chave mesmo. Mudou completamente. Eu não aceitei a situação. Mas quem aceita? E foi aí que começamos a luta. No perguntávamos o porquê daquilo, se havíamos feito algo errado, se havia algum culpado na história. O mundo caiu sobre nossas cabeças”, desabafou.

Kelly não entendeu que poderia tocar sozinha os negócios da família, sentia que precisava dele ao lado. “Era minha segurança, entende?” Com o tempo, as coisas foram ficando mais difíceis, muitas arestas foram ficando e ela resolveu, então, vender a empresa. “Me arrependo até hoje. Dói muito em mim, pois era praticamente minha a imobiliária. Ele tinha deixado algo para mim, pois meus irmãos já estavam seguindo suas vidas”, contou.

Com um momento de confusão e perdida, Kelly acabou se mudando e a família se separou. O pai foi para uma clínica em Maringá, terra natal no Paraná, sua mãe se mudou para lá também, na casa de parentes e ela foi trabalhar em Florianópolis.

Com o tempo, entre idas e vindas, ela acabou entendendo que a família não podia ficar assim, cada um para um lado. Em uma das visitas que fez, acabou ficando. Com a chegada da pandemia, as coisas pioraram e então ela decidiu que precisava voltar para Campo Grande. Reuniu forças, juntou novamente as coisas e a família.

Altos e baixos, quedas, a situação do pai cada vez mais distante de se resolver. “Foram momentos dolorosos, mas muita coisa boa aconteceu também. Acontece que meu dever me chamou novamente. Eu ouvia meu pai me chamar”, contou.

Hoje, o pai vive em um estágio da doença em que precisa das pessoas até mesmo para tomar banho. E quem cuida de todos os detalhes com muito amor e cuidado, são elas, mãe e filha. Os outros irmãos se casaram, têm seus filhos, cada qual com sua vida.

 

O Direito e o amor pelos animais

Arquivo pessoal

“A gente nunca acha que a doença vai cair na nossa casa, ela está sempre na casa do vizinho”

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Para ela, cursar a faculdade de Direito foi uma das escolhas mais importantes pois, como havia assumido os negócios do pai, queria ter o entendimento da área jurídica para garantir que estaria segura em tudo, com contratos bem feitos e para proteger os bens da família. Além disso, ela nutria um sentimento e um sonho muito grande desde criança, queria criar uma lei para proteger os animais. Essa parte ela ainda não conseguiu alcançar, mas o trabalho tem permitido que ela faça a tarefa de casa.

Sem condições financeiras para pagar um cuidador e também sem conseguir deixar o pai sozinho com a mãe devido aos cuidados que ele requer, Kelly resolveu unir o útil ao agradável. Durante sua experiência morando em Florianópolis, fez alguns cursos técnicos e ganhou alguma vivência como dog walker, o profissional que cobra para fazer passeios com os animais de outras pessoas.

Em Campo Grande, há pouco mais de um ano, a bacharel em Direito resolveu abrir as portas da sua casa para receber os ilustres visitantes. “Fiz algumas adaptações, não é nada de luxuoso, mas aqui em casa eu consigo olhar meu pai, ajudar minha mãe e cuidar dos animais”, contou.

Arquivo pessoal

“A gente nunca acha que a doença vai cair na nossa casa, ela está sempre na casa do vizinho”

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Foi uma amiga que conheceu em uma trilha, com uma história muito parecida com a dela, que a inspirou a desenvolver o trabalho. “Eu já cheguei a cuidar de doze. A casa é pequena, dias de chuva é difícil, mas eu gosto. Todo trabalho é árduo e cuidar de animais dos outros é complicado, é um filho que a pessoa tem e deixa com você, tem que ter responsabilidade”, conta.


Hoje ela já fez algumas adaptações mas lembra que ainda tem muito o que fazer. “Não é um hotel, digamos que somos um dog home. Cuido como se fossem meus mesmo e eu não os deixo presos. Aqui eles são livres. Eu sou contra animais presos. O único momento que prendo é quando vou limpar a casa ou quando chove, que vão para dentro de casa, mas não deixo em gaiolas”, contou.

Enquanto isso, ela vai conseguindo manter-se na companhia dos pais, dos animais, fazendo o que pode para garantir que todos estejam bem cuidados, desde o seu grande herói, até os “hóspedes” e os próprios animais que vivem com ela. Apaixonada por fotografia, ela mesma faz seu registro ao lado dos fiéis amigos.

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