Bernardo Cerveró, filho do ex-diretor da Área Internacional da Petrobras Nestor Cerveró, voltou a acusar o ex-senador Delcídio do Amaral de pressionar o seu pai para que não celebrasse acordo de delação premiada com a força-tarefa da Operação Lava Jato.
Bernardo Cerveró foi ouvido pelo juiz substituto da 10ª Vara Federal Ricardo Leite na ação penal em que Delcídio, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o pecuarista José Carlos Bumlai e o banqueiro André Esteves, entre outros, são acusados de tentar comprar o silêncio de Nestor.
Ele confirmou ter recebido uma primeira remessa de R$ 50 mil enviados por Delcídio como uma “ajuda à família”, mas disse não ter ficado com a quantia. O dinheiro teria sido devolvido a Edson Ribeiro, então advogado de Nestor e intermediário do pagamento, para que ele cobrisse custos processuais.
Questionado pelo MPF (Ministério Público Federal), Bernardo relatou ter se encontrado pelo menos quatro vezes com o ex-senador Delcídio do Amaral para discutir o teor das tratativas que haviam sido iniciadas com os procuradores da Lava Jato em Curitiba após a prisão de Cerveró, em janeiro do ano passado.
Em uma delas, em um encontro no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, “ele [Delcídio] diz explicitamente, ele me pede textualmente para não fazer delação. Que ele [Nestor] ia ficar refém dos procuradores”, disse Bernardo.
Tais reuniões teriam ocorrido por incentivo de Edson Ribeiro, a quem Bernardo acusa de atuar contra os interesses do próprio cliente e em prol dos de Delcídio, a partir do momento em que passou a tentar demover Nestor Cerveró de fechar um acordo de delação premiada.
Segundo Bernardo, o advogado teria tentado influenciar inclusive a delação do lobista Fernando Baiano, outro colaborador da força-tarefa da Lava Jato.
“Para o meu espanto, ele [Edson] pediu para eu passar uma mensagem para o Gustavo [irmão de Baiano] para que Fernando Baiano não falasse do senador. Ele me colocou na situação de cometer um crime de obstrução de Justiça”, disse Bernardo.
A defesa de Ribeiro nega todas as acusações e argumenta que o advogado sempre se posicionou contra acordos de delação premiada celebrados por pessoas presas.
Lula e Bumlai
A acusação do Ministério Público diz que Bumlai e Lula estariam por trás do pagamento feito a Bernardo, conforme depoimento prestado por Delcídio em sua própria delação premiada.
No depoimento, contudo, o filho de Cerveró disse que sabia somente que o dinheiro havia sido enviado pelo senador, desconhecendo a origem do recurso.
“Os pagamentos eram nesse sentido. Vai haver ajuda a família, contanto que não houvesse delação. O Edson fala isso claramente [...] Foi-se criando claramente a figura da preservação do senador em função dessa ajuda, condicionada à não menção de certos [fatos]”, disse Bernardo.
A suposta participação de André Esteves no pagamento foi mencionada a Bernardo pelo próprio Delcídio, numa conversa gravada que teve com o senador em Brasília, em novembro do ano passado.
Na ocasião, o senador também disse que o banqueiro ajudaria a pagar despesas desde que Nestor não citasse a participação dele num suposto esquema envolvendo postos de combustível.
