Campo Grande 00:00:00 Sexta-feira, 24 de Julho de 2026


Opinião Sexta-feira, 24 de Julho de 2026, 12:12 - A | A

Sexta-feira, 24 de Julho de 2026, 12h:12 - A | A

Opinião

A moeda, a marca e o poder da percepção

Por Victor Fortunato*

Artigo de responsabilidade do autor
Envie seu artigo para [email protected]

Divulgação

Victor Fortunato

Victor Fortunato

O dinheiro talvez seja o caso mais radical de branding já produzido pela humanidade. A afirmação pode soar provocativa, especialmente para quem associa branding apenas a logotipos, campanhas publicitárias ou estratégias de marketing. No entanto, basta observar a história econômica recente para perceber que o valor de uma moeda nunca esteve no papel que a representa, mas na confiança coletiva depositada sobre ela.

O mundo oferece exemplos eloquentes dessa realidade. O Zimbábue tornou-se símbolo do colapso da confiança monetária ao emitir uma cédula de 100 trilhões de dólares zimbabuanos que, na prática, não era suficiente para comprar um simples pão. A nota continuava sendo impressa com os mesmos processos gráficos, possuía elementos de segurança e carregava a assinatura do Estado. Ainda assim, havia perdido completamente sua função econômica porque a população deixou de acreditar em seu poder de compra.

A Argentina percorreu caminho semelhante. Desde 2009, o peso argentino perdeu praticamente todo o seu valor frente ao dólar, levando milhões de cidadãos a buscar proteção em moeda estrangeira, guardando dólares físicos ou recorrendo a ativos dolarizados. Mais do que uma mudança financeira, trata-se de um fenômeno de comportamento. O consumidor simplesmente abandonou a moeda nacional em favor daquela que transmitia maior segurança e previsibilidade.

Esses episódios demonstram que dinheiro não é apenas um instrumento econômico. É, antes de tudo, um contrato psicológico firmado entre uma sociedade e sua moeda. O papel em si custa poucos centavos para ser produzido. Não possui utilidade material significativa, não alimenta, não veste e não abriga ninguém. Seu valor nasce exclusivamente da crença compartilhada de que ele poderá ser trocado por bens e serviços. Quando essa crença desaparece, desaparece também o valor.

Sob essa perspectiva, a lógica das marcas torna-se muito mais clara. Uma marca forte funciona exatamente como uma moeda confiável. Ela representa uma promessa. Enquanto consumidores acreditam que essa promessa será cumprida, o valor da marca permanece elevado. Quando a confiança é rompida, não há identidade visual sofisticada, investimento publicitário ou reposicionamento estético capaz de impedir a perda de credibilidade.

A história brasileira oferece um dos exemplos mais interessantes dessa dinâmica. Em 1994, o país convivia com inflação próxima de 5.000% ao ano. Os preços eram remarcados diariamente e a população já não confiava na própria moeda. Antes da criação do Real, foi implementada a Unidade Real de Valor (URV), uma moeda que sequer existia fisicamente. Durante quatro meses, salários, contratos e preços passaram a ser expressos em URV, enquanto os pagamentos continuavam sendo realizados em cruzeiros reais.

A genialidade desse processo consistiu em preparar primeiro a percepção das pessoas. A população passou a pensar em uma nova referência de valor antes mesmo de receber uma nova cédula. Quando o Real entrou oficialmente em circulação, em julho de 1994, a mudança ocorreu de forma muito mais natural. A inflação, que havia alcançado 47% em junho, caiu para 6,9% em julho e continuou recuando nos meses seguintes.

O sucesso do Plano Real costuma ser analisado sob a ótica econômica, mas ele também oferece uma importante lição sobre construção de valor. A transformação começou na percepção coletiva e somente depois foi materializada em um novo produto. Em linguagem contemporânea, trata-se de um dos maiores processos de reposicionamento já realizados por um país.

Esse princípio vale igualmente para empresas, instituições e profissionais. Toda marca depende da coerência entre aquilo que promete e aquilo que entrega. O consumidor pode até ser atraído inicialmente por uma campanha criativa ou por um design bem elaborado, mas permanecerá fiel apenas se a experiência confirmar a expectativa criada.

Construir confiança exige tempo, consistência e repetição. Destruí-la pode levar apenas alguns dias. Uma promessa rompida tem o potencial de corroer rapidamente um patrimônio reputacional construído ao longo de décadas. É por isso que branding não pode ser confundido com comunicação visual. Seu verdadeiro ativo é a credibilidade.

O dinheiro continua sendo a prova mais evidente desse fenômeno. Um pedaço de papel produzido a baixo custo pode movimentar economias inteiras enquanto existir confiança em seu valor. Quando essa confiança desaparece, resta apenas o papel. O mesmo acontece com qualquer marca. Seu maior patrimônio não está em seus símbolos, mas na percepção que consegue construir e preservar ao longo do tempo.

Em um ambiente cada vez mais competitivo, compreender essa lógica talvez seja a principal vantagem estratégica disponível para empresas e organizações. Afinal, valor não nasce dos atributos físicos de um produto ou serviço. Valor nasce da confiança. E confiança, como demonstra a própria história do dinheiro, é o ativo mais valioso e, ao mesmo tempo, o mais frágil que existe.


*Victor Fortunato
Especialista em posicionamento de marcas, estrategista de branding e autor do livro Branding pra BraSileiro.

 

• • • • •

 

A veracidade dos dados, opiniões e conteúdo deste artigo é de integral responsabilidade dos autores e não reflete, necessariamente, a opinião do Portal Capital News

 

Comente esta notícia


Reportagem Especial LEIA MAIS