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Quem escreve também ensina o país a sentir

Por Nayra Gazafi de Moraes*

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Divulgação/Instituto Positivo

Nayra Gazafi de Moraes

Nayra Gazafi de Moraes

A presença de escritoras negras nas estantes amplia repertórios, combate estereótipos e transforma a forma como o Brasil se reconhece

Costumamos dizer que a literatura desenvolve empatia, mas nenhum livro transforma alguém apenas por ser lido. A mudança começa quando uma história nos obriga a abandonar, ainda que por algumas páginas, o lugar confortável de onde observamos o mundo.

Esse movimento ganha uma força particular quando lemos obras de mulheres negras, pois o racismo depende da redução. Ele transforma pessoas em categorias, aprisiona existências em estereótipos e insiste em enxergar corpos antes de reconhecer histórias. A literatura percorre o caminho contrário: ao criar personagens complexas, narrar memórias, desejos, medos, alegrias e contradições, escritoras negras devolvem profundidade a vidas que tantas vezes foram representadas de maneira limitada ou distorcida.

Há uma diferença decisiva entre aparecer em uma história e conseguir narrá-la. Durante muito tempo, mulheres negras estiveram presentes na literatura brasileira principalmente pelo olhar de outros: como figuras secundárias, corpos disponíveis, trabalhadoras sem vida interior ou personagens definidas apenas pela dor. Quando assumem a autoria e o protagonismo, não apenas ocupam uma página.

Isso importa para as leitoras negras, que podem se reconhecer para além da ausência e do sofrimento. Podem encontrar personagens que amam, criam, erram, lideram, desejam, riem, envelhecem e imaginam futuros. Representatividade não é somente ver alguém parecido consigo na capa de um livro. É encontrar a própria humanidade tratada como matéria digna de ficção, poesia, memória e pensamento.

Também importa para quem não vive o racismo. A literatura não substitui a educação antirracista, o debate público ou as mudanças sociais necessárias, mas pode alcançar um território que dados e discursos nem sempre acessam: a imaginação. Ao acompanhar uma personagem por dentro, o leitor deixa de observar uma realidade à distância, sendo convidado a perceber como o racismo atravessa gestos cotidianos, afetos, escolhas e possibilidades. Não se trata de sentir pena, mas de reconhecer complexidade. A empatia que transforma não olha de cima. Ela reduz a distância sem apagar as diferenças.

Por isso, escolher quais livros chegam às escolas, bibliotecas, livrarias e casas nunca é uma decisão neutra. Toda estante ensina, silenciosamente, quem pode ser autora, quem merece protagonizar uma história e quais experiências ajudam a explicar o país. Uma dissertação de mestrado da Universidade de Brasília, defendida em 2023, analisou 15 editoras tradicionais do eixo Rio de Janeiro–São Paulo e identificou 154 autores negros publicados entre 2011 e 2021, diante de um universo estimado de mais de 2.650 autores em seus catálogos. O número ajuda a demonstrar que a ausência nas estantes não acontece apenas por falta de produção, mas também de escolhas.

Celebrados na mesma data, 25 de julho, o Dia Nacional da Escritora e do Escritor e o Dia da Mulher Negra oferecem mais do que uma oportunidade de celebração. Esse encontro no calendário nos convida a rever o mapa de nossas leituras. Escritoras negras não estão pedindo licença para entrar na literatura brasileira. Elas participam da construção da literatura brasileira há muito tempo. Cabe aos circuitos de publicação, educação e leitura deixar de tratá-las como exceção.

É curioso, claro, fazer essa reflexão justamente em um texto motivado pelo calendário. Mais uma vez, precisamos de uma data para lembrar o que deveria estar presente o ano inteiro. Ainda assim, talvez a melhor maneira de aproveitar a ocasião seja utilizá-la não como ponto de chegada, mas como incômodo: quantas escritoras negras permanecerão em nossas estantes depois que a homenagem passar?

Talvez esse seja um dos maiores poderes da literatura: ampliar o número de vidas que somos capazes de imaginar por inteiro. Ler mulheres negras não é sair do centro da literatura brasileira, mas perceber quem foi injustamente mantido fora dele.


*Nayra Gazafi de Moraes
Mestra em Comunicação e jornalista. Atua na comunicação de iniciativas de incentivo à leitura no Instituto Positivo.

 

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