Estamos em pleno período eleitoral, e, como já acontece há tantos anos, voltamos a ouvir os mesmos assuntos, as mesmas promessas e os mesmos problemas sendo apresentados como prioridades para o futuro do nosso país. Saúde, educação, segurança, emprego, pobreza, impostos e tantas outras questões continuam, naturalmente, sendo importantes, mas existe uma transformação acontecendo diante dos nossos olhos que ainda parece não ter recebido a atenção que merece: a Inteligência Artificial. Alguns candidatos já começam a perceber essa realidade e falam, ainda que superficialmente, sobre a necessidade de o Brasil se preparar para a revolução da IA, mas precisamos entender que não estamos diante de mais uma simples inovação tecnológica, e sim diante de uma transformação que poderá modificar profundamente a maneira como trabalhamos, estudamos, produzimos, consumimos e até mesmo como nos relacionamos com o conhecimento e, consequentemente, com as outras pessoas. E é importante lembrar que essa revolução ainda está apenas começando.
Nessa nova corrida, um dos problemas de nosso país é que o Brasil já entra nessa nova realidade carregando dificuldades antigas que ainda não conseguimos resolver. Segundo o IBGE, em 2025, a taxa de analfabetismo entre brasileiros de 15 anos ou mais caiu para 4,9%, o menor índice da série histórica, mas isso ainda representa milhões de pessoas que não sabem ler e escrever adequadamente. Quando ampliamos nossa análise para além do analfabetismo absoluto, encontramos uma situação ainda mais preocupante: o Inaf 2024 aponta que 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais, enquanto outros 36% estão apenas no nível elementar de alfabetismo, apresentando limitações significativas para lidar com as demandas de uma sociedade letrada. Entre os trabalhadores, 27% são analfabetos funcionais e outros 34% estão no nível elementar, mostrando que, para o Brasil, o buraco é mais embaixo…
E é justamente aqui que precisamos começar a pensar sobre esse novo futuro. Como podemos esperar que uma população que ainda encontra dificuldades para interpretar textos, compreender informações e resolver problemas cotidianos esteja preparada para uma realidade na qual máquinas serão capazes de produzir textos, imagens, vídeos, análises, programas e respostas em poucos segundos? Como podemos imaginar que todos os trabalhadores estarão preparados para competir em um mercado no qual muitas das tarefas que realizamos atualmente poderão ser feitas por máquinas? Essa não é uma pergunta contra o trabalhador, nem contra a tecnologia, mas uma pergunta sobre a nossa capacidade de preparação. A Inteligência Artificial pode ser uma ferramenta extraordinária para aqueles que souberem utilizá-la, mas pode, também, aumentar ainda mais a distância entre aqueles que possuem conhecimento e aqueles que não o possuem.
Antes de pensar nesse novo futuro, também precisamos olhar para a questão econômica. O Bolsa Família continua atendendo milhões de famílias brasileiras e possui uma função importante na proteção social daqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade. Porém, seria um erro imaginar que políticas de transferência de renda, sozinhas, serão suficientes para enfrentar uma transformação tecnológica tão grande quanto a promessa da revolução da Inteligência Artificial. Se determinadas profissões forem transformadas ou substituídas pela Inteligência Artificial, simplesmente criar mecanismos para compensar financeiramente aqueles que perderem sua fonte de renda não será o bastante. Será necessário preparar essas pessoas para novas atividades, desenvolver suas capacidades e permitir que elas participem da nova economia. Se não for assim, poderemos chegar a uma situação na qual uma parcela cada vez maior da população dependerá do Estado justamente enquanto uma parcela cada vez menor estará preparada para produzir e competir em uma economia cada vez mais tecnológica.
Por isso, talvez a grande discussão deste pleito não devesse ser apenas sobre quem governará o Brasil nos próximos anos, mas sobre que Brasil será preparado para os próximos anos. Precisamos falar de educação, mas não apenas de acesso à escola. Precisamos falar de formação intelectual, pensamento crítico, leitura, matemática, capacidade de interpretação e, principalmente, capacidade de aprender continuamente. Afinal, quanto mais inteligentes forem as máquinas, maior será a necessidade de que o homem saiba pensar. Uma pessoa que não consegue avaliar uma informação poderá simplesmente aceitar aquilo que a Inteligência Artificial lhe apresentar, e uma sociedade que terceiriza o próprio pensamento se torna mais vulnerável à manipulação.
A tecnologia não é, por si mesma, boa ou má. Ela amplia possibilidades e, justamente por isso, amplia também as consequências das nossas escolhas. A mesma Inteligência Artificial que poderá aumentar a produtividade de uma empresa poderá também substituir determinadas funções; a mesma ferramenta que poderá democratizar o acesso ao conhecimento poderá produzir desinformação em uma velocidade jamais vista; e a mesma tecnologia que poderá auxiliar um estudante poderá, se utilizada de maneira inadequada, transformar o aprendizado em mera reprodução de respostas prontas. O problema, portanto, não está somente naquilo que a máquina será capaz de fazer, mas naquilo que o ser humano estará preparado para fazer diante dela.
O Brasil precisa começar a discutir isso agora. Precisamos preparar nossas escolas, professores, trabalhadores, empresas e, principalmente, nosso povo. Não podemos simplesmente esperar que a revolução aconteça para depois descobrir que não estávamos preparados para ela. Como já vimos tantas vezes ao longo da história, aqueles que dominam o conhecimento possuem também uma parcela significativa do poder, enquanto aqueles que não o possuem tornam-se mais dependentes daqueles que sabem. E um povo intelectualmente preparado é, sem dúvidas, um povo mais difícil de enganar, manipular e conduzir para onde não deseja ir.
A Inteligência Artificial não vai esperar que o Brasil resolva todos os seus velhos problemas para continuar avançando. Ela já está transformando o mundo e continuará o transformando, independentemente de estarmos preparados ou não. A grande questão é se teremos a capacidade de acompanhar essa transformação ou se, mais uma vez, chegaremos atrasados nessa corrida. Que venhamos, olhar para a IA não apenas como uma ameaça, mas como um chamado à responsabilidade, entendendo que o maior investimento que podemos fazer diante dessa nova realidade não está somente nas máquinas que iremos utilizar, mas nas pessoas que estarão diante delas. Porque a verdadeira revolução ainda está apenas começando, e talvez o maior risco para o Brasil não seja ser dominado pela Inteligência Artificial, mas simplesmente ser deixado para trás por ela.
*Wanderson R. Monteiro
Autor de São Sebastião do Anta - MG.
Bacharel em Teologia, Pedagogo.
Psicanalista.
Dr. Honoris Causa em Literatura e Dr. Honoris Causa em Jornalismo.
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