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Rural Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008, 11:21 - A | A

Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008, 11h:21 - A | A

Mercado de leite: o que esperar de 2009?

Redação Capital News (www.capitalnews.com.br)

Essa é a pergunta que todos fazem e que, já adianto, não tem prognóstico fácil. Qualquer previsão, por si só, já é arriscada; no atual cenário de incertezas na economia global, apresenta altas chances de equívoco. De qualquer forma, é possível analisar alguns elementos e, dentro do quadro que existe hoje, tecer algumas possibilidades.

O comportamento do mercado em 2009 vai depender de quatro variáveis: oferta de produto no mercado interno, demanda interna, câmbio e preços externos dos lácteos, especialmente o leite em pó integral. A interação dessas variáveis é que ditará o ritmo dos preços no mercado interno. Vamos comentá-las:

Oferta interna de leite

Tudo indica que em 2009 a produção crescerá muito pouco, se é que vai crescer. Pelo menos para o primeiro semestre, a previsão é de crescimento muito baixo ou negativo. Essa afirmação pode ser feita ao analisarmos o comportamento da oferta nos últimos meses, de acordo com o Índice de Captação de Leite do Cepea/USP. De maio a outubro, a produção cresceu apenas 5,3% neste ano, contra 36,2% em 2007. Tanto setembro quanto outubro de 2008 estão apresentando produção inferior à do mesmo mês de 2007. Pelo gráfico 1, nota-se que a queda na oferta, em comparação ao mesmo mês do ano anterior, foi muito mais rápida do que a ascensão. Diante dos baixos preços do leite e preços da arroba elevados (até determinado período), o produtor pisou no freio, reduzindo suplementação e enviando vacas para o abate.

Essa característica de resposta rápida na produção, tanto para aumentar como para diminuir a oferta, é típica de situações onde prevalece baixa produtividade, sistemas em maior ou menor grau extensivos e em que não há significativas barreiras de entrada ou saída. Diante de preços muito convidativos, a oferta rapidamente cresce, tendendo a reequilibrar o mercado; diante de desestímulo, o inverso ocorre.

Há alguma expectativa de reversão nesse quadro de oferta restrita? No primeiro semestre, não. Pode haver no segundo semestre, caso os preços subam significativamente a partir de março. De qualquer forma, pode-se apontar com razoável precisão de que a oferta elevada não será, desta vez, a vilã que derrubará os preços. A oferta restrita atuará estimulando aumento de preços.


Demanda interna

Essa variável já é bem mais complicada de se prever. Afinal, ela é produto do crescimento da renda - e há enormes divergências a respeito do crescimento do PIB brasileiro em 2009. Enquanto o governo busca 4,0%, o Banco Mundial aponta 2,8% e os agentes consultados pelo Banco Central do Brasil falam em 2,5%. Uma diferença significativa. Mas não é tudo: um ex-diretor do FMI disse outro dia que se o Brasil crescer 0% em 2009, deve comemorar. Segundo ele, os EUA podem ter um retrocesso de 3 a 4%, fruto da crise mundial. Aí a coisa complica mesmo.

Matéria de ontem (22/12) no jornal O Estado de São Paulo, coloca que a crise pode interromper a trajetória de crescimento da classe média que, só no último ano, engordou em 20 milhões de pessoas. De onde vem esse prognóstico? O desemprego tende a subir de 7,6% para 8,5% ou até 10,0%, dependendo da previsão; além disso, o crédito já está mais caro e difícil. Tudo isso significa um breque na mobilidade social ascendente que caracterizou os últimos anos.

O gráfico 2 mostra o enorme crescimento do consumo da classe média. Nos últimos quatro anos, segundo a Target Consultoria, a elevação foi de nada menos do que 30% ao ano. A previsão para 2009 é de míseros 3,0%, considerando crescimento de 2,5% do PIB. O gráfico também mostra a variação esperada caso o PIB cresça 2,0% ou 4,0%; mesmo com 4,0%, o consumo da classe média não repetirá nem de longe os resultados dos últimos anos.

Diante desse cenário incerto, é muito difícil tecer qualquer comentário a respeito do crescimento do mercado de lácteos, exceto de que o crescimento na demanda, se houver, será pequeno. Um fato, porém, pode ser colocado: certamente outros setores sofrerão bem mais do que os lácteos. Os setores automobilístico e de construção civil, por exemplo. Dentro dos lácteos, produtos de maior valor agregado devem sofrer queda maior nas vendas do que o leite fluido, para ficar em um exemplo.


A grande questão a se responder é se a oferta menor ou ao menos mais regulada vai se equilibrar com a demanda mais baixa. Se a demanda for pouco afetada, isto é, se a crise aqui for mesmo uma marola, pode haver escassez de leite e elevação dos preços, talvez a partir de março. Qual será o teto? Isso dependerá das duas outras variáveis: câmbio e preços externos.

Câmbio

O câmbio é uma variável-chave, pois influi diretamente na nossa competitividade externa, isto é, com que facilidade conseguimos exportar, ou com que facilidade o produto importado entra no país. A valorização do dólar e a conseqüente desvalorização do real desde agosto, sem dúvida, compensam parcialmente a queda nos preços internacionais. Mas traçar qualquer prognóstico de câmbio é difícil nesse momento de grande volatilidade. O Boletim Focus, do Banco Central, feito com agentes do mercado financeiro, indica câmbio médio de R$ 2,20 para 2009. Há quem esteja trabalhando com 2,30. O quadro abaixo mostra o preço de equivalência, considerando diversas taxas de câmbio e preços de leite no mercado internacional. Supondo câmbio de R$ 2,20 e tonelada do leite em pó a US$ 3.000, por exemplo, o preço de equivalência (máximo preço a se pagar pela matéria-prima nacional) seria ao redor de R$ 0,67/litro.


Preços externos

Outra variável importante e para a qual há um cenário incerto. No primeiro semestre, porém, as perspectivas não parecem muito animadoras. O último leilão da Fonterra chegou a valores pouco abaixo de US$ 2.100 a tonelada para entrega em fevereiro e US$ 2.440 de junho a agosto. As notícias vindas dos Estados Unidos não são boas. Com a recessão, o consumo cai e o governo está comprando grande quantidade de leite em pó que, em algum momento, terá de ir ao mercado. Na União Européia, não será surpresa se a partir de março o sistema de intervenção (leia-se subsídios à exportação) retorne.

O que pode mudar isso? É possível que a oferta global tenha também uma desaceleração. Afinal, os baixos preços chegaram aos mesmos países que responderam com elevação de oferta diante dos preços recorde de 2007. No entanto, assim como no caso brasileiro, fica a dúvida sobre como a demanda vai se comportar, principalmente o quanto os países emergentes serão afetados. São esses os países que têm capitaneado o aumento da demanda e que, em última análise, fizeram com que os preços subissem no mercado internacional em 2007.

Possíveis cenários

Considerando todas essas variáveis, podemos apontar os seguintes cenários possíveis, lembrando que mais de um cenário pode ocorrer em 2009, dependendo da época do ano:

1)Mercado interno ajustado: a oferta menor se equilibra com a demanda, não há grandes excedentes nem tampouco importações significativas. Os preços seguem, em linhas gerais, o mercado externo. Esse é inclusive o cenário atual, embora as importações tenham aumentado e já preocupam.

2)Escassez moderada de leite no mercado interno: nesse caso, entra leite do Mercosul, especialmente Argentina. A variável aqui é como se comportará a produção no país vizinho. Nesse ano, 2008, os dados indicam crescimento entre 5 e 6%. Será que 2008 terá comportamento parecido? Pouco provável, mas é possível que, nesse cenário, tenhamos aumento das importações.

3)Escassez significativa de leite no mercado interno: esse cenário pressupõe que a demanda não cairá tanto e que a menor (ou igual) oferta, mesmo com complemento do leite do Mercosul, será insuficiente para suprir o mercado interno. Nesse caso, os preços internos se descolam do mercado internacional, pois o leite importado de fora do Mercosul paga 27% de imposto de importação, além de tarifas anti-dumping adicionais para a União Européia e Nova Zelândia. Nesse caso, os preços internos sobem significativamente e as exportações obviamente caem bastante.

4)Há excedente de leite no mercado interno: nesse cenário, a oferta continua crescendo e, com a demanda mais tímida, há excedentes que serão exportados. Dos quatro cenários, esse é o menos provável no curto prazo, embora possa se tornar realidade no final de 2009, principalmente em seqüência ao terceiro cenário.

Como é possível perceber, há muita incerteza e diversas possibilidades. Ainda, há questões relativas à saúde financeira de empresas brasileiras atuantes no setor, o que pode ou não piorar o cenário. De qualquer modo, o produtor deve esperar 2009 com cautela; apesar dos custos de produção mais baixos (principalmente em função dos concentrados energéticos, fertilizantes e sal mineral), os preços médios recebidos devem ser também mais baixos (espero estar errado!). Penso que 2009 não será um ano memorável, mas talvez não seja também a tragédia que se pinta.

Por fim, uma frase com a qual terminei algumas palestras recentes para empresários do setor. Ela é de Sam Walton, fundador do Wal-Mart, maior empresa norte-americana: "Me perguntaram o que eu achava da recessão. Pensei sobre ela e decidi não participar". E você, o que pode fazer para não participar da crise ?  (Fonte: Marcelo Pereira de Carvalho - Diretor Executivo da AgriPoint, engenheiro agrônomo)

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