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ENTREVISTA Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008, 10:26 - A | A

Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008, 10h:26 - A | A

Presidente da Famasul, Ademar da Silva Júnior, fala das perspectivas para o agronegócio em 2009

Da redação (LM)

Implantar um moderno planejamento estratégico para afinar o discurso e as ações do sistema sindical patronal liderado pela CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) – órgão representativo de 1,2 milhão de produtores sindicalizados em todo o País – é apenas uma das metas que o presidente da Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul), Ademar Silva Junior, já emplacou no órgão, antes mesmos de sua posse, que foi no dia 15 de dezembro como vice-presidente de finanças do órgão.

Tomando pela sugestão do inédito plano – acatado de imediato pela senadora Kátia Abreu – é possível imaginar a "revolução" que o médico veterinário com especialização em agronegócios pretende conduzir na CNA.

Veja a seguir a entrevista.

1 -  Pela primeira vez o Estado participa da diretoria da CNA – em chapa eleita – mas, qual será o significado desta eleição para a liderança rural regional?
Ademar da Silva Júnior -
Estamos em um momento novo, de renovação, de mudança de pensamento. Uma verdadeira quebra de paradigmas. Basta ver que teremos uma mulher presidindo a principal entidade de classe do agronegócio brasileiro. A senadora Kátia Abreu passou pelo sistema sindical em todos os seus níveis e chega agora à Confederação, além de estar no meio político. Neste contexto, o Mato Grosso do Sul é reconhecido por essa nova diretoria e demais lideranças do Brasil todo como um Estado pujante, que possui representatividade muito grande no agronegócio. Isso não é graças ao Ademar, nem à Famasul. È fruto dos produtores sul-mato-grossenses. Se não fosse todo este potencial, dinamismo e visão de mudança no setor, com certeza não estaríamos hoje tendo esta oportunidade de ocupar este cargo.

2 - Pela primeira vez a CNA elabora um plano estratégico de gestão. O projeto foi definido logo na primeira reunião da nova diretoria eleita. Como surgiu esta iniciativa e quais os objetivos esperados?
Ademar da Silva Júnior -  Esta já é uma grande contribuição que nós de Mato Grosso do Sul estamos levando para a CNA. Até porque nossa diretoria tem um planejamento traçado deste o início da gestão, ou seja, estamos há dois anos executando as metas para o setor de forma planejada e, agora, iniciamos o planejamento dos sindicatos rurais. Então, levamos esta proposta e foi acatada antes mesmo da posse da nova diretoria.

3 -  Quais os primeiros objetivos do plano?
Ademar da Silva Júnior -  Nesta primeira reunião já tivemos a presença dos 27 presidentes das federações de Agricultura do Brasil, reunidos para discutir quais serão os nossos rumos, metas e principalmente a missão a partir de 2009, olhando um horizonte para 2020. A CNA percebe – com a sensibilidade de mudança da nova gestão – que o setor mudou, o mundo mudou, e que o agronegócio precisa ser inserido neste século XXI, em todo este conceito de modernidade, globalização e de mercados mundiais. E nós produtores rurais temos grandes problemas em relação a isso.

4 – Neste cenário qual desafio a Famasul sugeriu?
Ademar da Silva Júnior -  – Um grande desafio é reverter o quadro onde os jovens se afastam do setor. Hoje, os filhos de produtores rurais vão paras as cidades em busca dos estudos, e não querem mais abrir mão da vida urbana. E quem fica no campo? Os pais, os avós, enfim, isso gera um problema. Afinal, o Brasil depende do agronegócio para crescer, mas hoje tem uma pequena porcentagem de sua população no campo. Agora, esse fenômeno não é exclusivamente nosso, isso vem acontecendo em todos os países desenvolvidos e em desenvolvimento, e não seria diferente aqui.

5 – Quais as sugestões para reverter este quadro? 

Ademar da Silva Júnior - Acreditamos na ampliação da inclusão digital. Temos que levar tecnologia e informação a este homem do campo. Um grande desafio. Afinal, temos inúmeras dificuldades de logística, infra-estrutura, e essa diversificação enorme de realidades existentes nas regiões brasileiras. Mas vamos enfrentar a situação e acharemos as soluções para reverter este quadro.

6 - Como inserir o produtor no mercado global?
Ademar da Silva Júnior -  Também será um grande desafio. O mercado mundial exige cada vez mais qualidade, cria novas barreiras sanitárias, comerciais e outras inúmeras dificuldades. Mas, mesmo com tantas adversidades, nosso produtor não pára de bater recordes de produção e de colocar nossos produtos com preços competitivos no mundo todo. Mas precisamos melhorar nossas lideranças para este desafio.
O produtor precisa ser capaz de enfrentar os problemas que vão surgir, e só um líder não vai resolver. Então, nossa proposta é criar uma massa crítica de liderança, e é possível formar este gestor, através do treinamento e capacitação. Para isso, temos os projetos Gestão Sindical e o Empreendedor Rural.

7 - Quais outros projetos pretende levar para a CNA?
Ademar da Silva Júnior -  Somos grandes trabalhadores, mas precisamos gerar renda. E as entidades sindicais, organizadamente, precisam assumir esta responsabilidade. Afinal, batemos recordes de produção e temos sucesso da porteira para dentro. Mas o depois nos impacta e tira nossa rentabilidade, e esse produtor não consegue cuidar dessas duas pontas. Então, nossa estratégia será focada na capacitação da gestão e integração aos meios tecnológicos. Isto nós estamos levando aos sindicatos rurais, às federações e espero que para todo o sistema sindical do Brasil. E a senadora já deu sinal de que vai fazer muita coisa neste sentido. Afinal, nós temos que assumir e chamar esta responsabilidade, resolvendo os problemas da classe produtora, fora, antes e depois da porteira. Também vamos lançar a idéia da Câmara de Arbitragem.

8 - Como vai funcionar a Câmara de Arbitragem?
Ademar da Silva Júnior - Esse mecanismo é moderno em todo mundo, mas ainda não usamos. A idéia é constituir uma Câmara de Arbitragem – o que já existe em vários setores – onde iremos colocar na mesma mesa – por exemplo em um conflito entre pecuaristas e frigorífico em dificuldades financeiras – a indústria ou o representante do setor industrial, no caso, a Fiems (Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul), os produtores rurais representados pela Famasul, governo e o Judiciário. Sentados, vamos achar uma forma de sanar o problema, sem fechar a indústria e sem deixar os produtores no prejuízo. E vamos fazer isso de forma justa para todos. Essa é uma idéia nova e vamos ter que implantar. Claro que vão ocorrer muitos problemas neste momento de crise, seja com frigoríficos, usinas de álcool, etc. Mas, precisamos mudar esta história de cada um por si. E este é o papel que as instituições de classe tem que assumir neste momento.

9 – A senadora também pretende implantar um sistema previdenciário no setor?
Ademar da Silva Júnior - A senadora está trazendo um projeto voltado à previdência social. As pessoas acham que Funrural serve para aposentadoria, mas não serve. O produtor que hoje está na faixa etária dos 65 anos não tem a cultura de fazer Previdência, não recolhe para a previdência pública e não tem a cultura de ir ao banco fazer uma previdência privada. Então, a proposta é criar uma metodologia que leve a previdência privada ao campo. É difícil mudar a cultura. Mas, está ai o exemplo da PREVI (Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil) e do fundo de previdência da Petrobras. Então, será que 1,2 milhão de produtores rurais não podem ter seu fundo de pensão, sua previdência privada? É um desafio, um problema a mais que precisa ser enfrentando.

10 – Quando a Funai anunciou estudos para a demarcação de novos territórios indígenas em 26 municípios do Estado, a CNA permaneceu distante e calada, isolando os produtores rurais no cenário nacional. Como a nova diretoria enfrentará a questão?
Ademar da Silva Júnior -  Posso garantir que vem aí uma mudança enorme. Acho que não é o momento de ficarmos repassando o passado ou criticar o que deixou de ser feito. Temos que olhar para frente. Tivemos problemas? Tivemos. Tivemos dificuldades? Tivemos. Perdemos um grande líder, o Antonio Ernesto que ficou doente, e o sistema todo respeitou sua ausência naquele momento de dor e dificuldade.
Depois, entramos em um processo de sucessão que muitas vezes é difícil de ser equalizado, mas isso também é passado. Houve sim ausência, ela é clara para todos nós, e não vamos esconder isso. Mas a idéia é olhar para o futuro. E o produtor e a sociedade vão ver que a CNA vai fazer um grande realinhamento. Para isso o planejamento estratégico iniciou antes mesmo da gestão começar, até porque vamos tomar posse dia 16 de dezembro, com início dos trabalhos em 5 de janeiro de 2009. E já estamos fazendo o planejamento porque sabemos que temos grandes dificuldades para enfrentar. Problemas que deixaram de ser observados na hora certa e que agora podem até nos trazer grandes prejuízos. Eu não tenho dúvida que este é um processo, que às vezes gera este tipo de situação. Mas, é passado e posso garantir que o futuro será muito melhor para o agronegócio brasileiro.

11 -  As últimas eleições no âmbito público deram nova projeção ao setor?
Ademar da Silva Júnior - Com certeza. Isso ficou evidente e até gritante. E digo mais, estamos atrasados nisso. Basta ver nossa instituição co-irmã – do lado dos trabalhadores – que já fez um presidente da República, ou alguém esquece que o presidente Lula saiu dos meios sindicais? Quantos movimentos sindicais o nosso presidente fez para chegar até o Planalto e ser tão popular e aceito pela sociedade brasileira?

12 – É uma ruptura de paradigma?
Ademar da Silva Júnior - Acho que o movimento sindical patronal mostra que compreendeu que o momento é diferente, está procurando exercer seu direito democrático de participação política, e agora no pleito municipal tivemos muito êxito. Só de presidentes de sindicatos rurais tivemos a eleição de dois prefeitos, três vice-prefeitos e vários vereadores. Agora, se colocarmos os demais membros dos sindicatos, o número passa de 20 eleitos. Além disso, fizemos um exercício e observamos que no Estado 40 sindicatos rurais vão poder indicar pelo menos um secretário municipal. Ou seja, os sindicatos estão participando do processo democrático. Entendo que estamos com maturidade e visão de futuro suficiente para enfrentar os desafios que vão surgir nesta nova postura e crescer.

E quem sabe no futuro o sistema de agronegócio brasileiro – e vejo isso na pessoa na senadora Kátia Abreu – não possa chegar a ocupar cargos no Executivo. Ela foi presidente de sindicato rural, federação, deputada federal, então, porque não presidente da República? É um sonho, mas vamos trabalhar para que possa ser concretizado. E vale lembrar, os trabalhadores acreditaram nisso, investiram e estão aí comandando os destinos do Brasil, por dois mandatos consecutivos. (Entrevista publicada no Jornal Informe Agropecuário Ano XX - dezembro de 2008)


 

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