A expansão da indústria de etanol de milho está mudando a dinâmica da cadeia produtiva de grãos em Mato Grosso do Sul. Desde a instalação da primeira usina, em 2022, o Estado ganhou uma nova alternativa para o consumo da produção de milho, fortalecendo a industrialização regional e criando um mercado de grande escala para os produtores.
Na safra 2024/2025, Mato Grosso do Sul cultivou mais de 2 milhões de hectares de milho e produziu 13,9 milhões de toneladas. Cerca de 2 milhões de toneladas foram destinadas à exportação no período, enquanto as usinas passaram a absorver uma parcela cada vez maior da produção estadual.
Atualmente, três unidades de etanol de milho estão em operação no Estado, nos municípios de Dourados, Sidrolândia e Maracaju. Uma quarta planta está em implantação em Nova Alvorada do Sul, com a proposta de integrar a produção de etanol de milho à estrutura de uma usina de cana-de-açúcar.
O movimento acompanha a expansão nacional do setor. Segundo dados apresentados em estudo da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS), o Brasil passou de 18 usinas de etanol de milho em operação, em 2023, para 29 na safra 2025/2026.
Mato Grosso do Sul responde atualmente por cerca de 20,9% da produção nacional, com estimativa de 2,128 bilhões de litros de etanol de milho na safra 2025/2026, ocupando a segunda posição entre os estados produtores.
Novo mercado para o produtor
Para quem produz milho, a expansão das usinas representa uma ampliação das possibilidades de comercialização. Historicamente, boa parte da produção da segunda safra tinha como destino a exportação e as fábricas de ração.
“A instalação das usinas acrescenta um novo comprador de grande porte dentro do próprio estado, criando uma terceira alternativa de comercialização para o grão. Além disso, a proximidade entre as lavouras e as indústrias pode reduzir a distância percorrida pelo milho e, consequentemente, a exposição aos custos logísticos das operações de longa distância”, aponta o analista de Economia da Aprosoja/MS, Linneu Borges Filho.
O fator logístico ganha relevância porque cerca de 80% da produção agrícola de Mato Grosso do Sul é transportada por rodovias, segundo levantamento citado no estudo. Em determinadas rotas de exportação, o frete pode representar uma parcela significativa do valor do milho.
Com a presença de indústrias próximas às regiões produtoras, parte do grão pode ser comercializada diretamente para as usinas, alterando a composição dos custos relacionados ao transporte.
Milho vira etanol, ração e outros produtos
A verticalização da cadeia não se limita ao etanol. As usinas utilizam o milho em processos de moagem seca e aproveitam diferentes componentes do grão.
Além do etanol, são produzidos DDG ou DDGS, óleo de milho e CO₂ industrial. Os produtos e subprodutos abastecem segmentos como alimentação animal, indústria de alimentos, biodiesel e bebidas.
Entre eles, o DDG ganhou espaço nas exportações sul-mato-grossenses. Em 2025, o Estado produziu 1,4 milhão de toneladas do produto, das quais 1,15 milhão de toneladas foram exportadas para países como Nova Zelândia, Turquia e Vietnã. O período também foi marcado pelos primeiros embarques para a China.
A industrialização vem ampliando ainda a participação do milho na economia estadual. Dados do Ministério da Agricultura e Pecuária citados no estudo apontam crescimento de 88,1% no Valor Bruto da Produção (VBP) do milho em Mato Grosso do Sul em 2025. Com isso, o grão passou a representar 16,8% do VBP agropecuário estadual.
Expansão movimenta economia regional
O avanço das usinas também gera impactos em atividades que vão além da produção agrícola, movimentando setores como logística, armazenagem, manutenção industrial, prestação de serviços e fornecimento de insumos.
O setor sucroenergético sul-mato-grossense, que reúne usinas de cana e milho, está presente em 42 municípios e gera aproximadamente 33 mil empregos diretos.
Entre os novos empreendimentos, a construção da unidade de Nova Alvorada do Sul deve envolver cerca de 2 mil trabalhadores. Já a unidade de Maracaju conta atualmente com 150 empregos diretos e aproximadamente 600 indiretos.
Infraestrutura entra no radar
O crescimento da indústria também aumenta a necessidade de infraestrutura para transportar tanto o milho quanto os produtos resultantes do processamento.
Nesse cenário, o estudo aponta a Rota Bioceânica como uma alternativa estratégica para os próximos anos, principalmente para o escoamento de produtos como o DDG com destino aos mercados asiáticos.
A expectativa é que o corredor conecte Mato Grosso do Sul aos portos do Pacífico, no Chile, ampliando as possibilidades de acesso a mercados internacionais.
Ao mesmo tempo, o aumento da capacidade industrial deve elevar a disputa pelo milho entre as usinas de etanol e as fábricas de ração. Com a entrada de novas plantas, a expansão da produtividade e da oferta do grão passa a ser um dos pontos de atenção para acompanhar o crescimento da indústria.
Em pouco mais de quatro safras, Mato Grosso do Sul passou de nenhuma usina de etanol de milho em operação para a segunda posição entre os maiores produtores nacionais.
Para os produtores, o avanço representa mais alternativas para comercialização. Para o Estado, amplia a industrialização da produção agrícola dentro do próprio território e cria novas demandas por infraestrutura, logística, serviços e mão de obra.
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