Terça-feira, 22h. Uma cadeira daquelas de colocar na varanda de casa, confortável. Um lanchinho e uma coberta. Cilma Santana da Costa é a primeira a chegar. Por quase 24 horas ela teve a companhia da família que ia visitá-la, dos vendedores e dos seguranças de uma loja na rua 13 de Maio, entre a avenida Afonso Pena e a rua Barão do Rio Branco.
Passados dois dias, cerca de uma centena de pessoas se juntaram a Cilma e formaram uma fila de clientes que queriam garantir o direito de escolher os melhores produtos da liquidação de peças de mostruários do Magazine Luiza, com produtos a até 70% de desconto.
“É uma geladeira, uma lavadora, mais alguma coisinha que o dinheiro der”, diz Cilma, feliz por conquistar o benefício de ser a primeira a entrar na loja. As mercadorias são escassas e quem escolhe primeiro e quem chegou antes.

Cilma da Costa, a primeira da fila, chegou ali às 22h de terça; televisão ajuda a passar o tempo
Foto: Deurico/Capital News
Cilma é casada e tem duas filhas. Ela se deslocou da região das Moreninhas ao Centro, uma distância aproximada de 18 quilômetros.
A trabalhadora de uma indústria de compensado, que recebe salário de R$ 650,00, diz que economizou até R$ 2 mil para poder gastar. Até chuva enfrentou. “Quando a gente quer ir ao banheiro, usa o do posto [de combustíveis, na mesma quadra, na esquina com a Afonso pena]. A gente faz um revezamento aqui [entre os que estão na fila] e vai. Vamos ver se vai valer a pena enfrentar até chuva. Mas, acho que vale, ‘né’? Vale sim.”
Como diz a propaganda: “Aqui você pega. Aqui você leva.”
Cilma diz à reportagem do Capital News que já tem tudo programado para não passar por apuro para levar uma geladeira e uma lavadora – ao menos – até às Moreninhas. “Meu cunhado vai vir buscar . Eu fiquei de ligar para ele. Se não der certo, já devo ligar para um rapaz que trabalha com frete”, diz, explicando também que deixou um dinheiro reservado para caso precise do transporte locado.

Fila já tinha cerca de uma centena de pessoas, segundo segurança, no final da tarde de quinta
Foto: Deurico/Capital News
Para espantar o calor
Na Capital, a temperatura máxima registrada há três dias é de 32ºC. Com o calor, as águas evaporam de modo mais rápido e na quinta, a chuva caiu em alguns pontos da cidade, inclusive no Centro.
Para espantar o calor, tudo que Antonia Delfin, 66 anos, quer é um ventilador. Ela chegou “tarde” para pegar seu lugar e era uma das últimas da fila – ao menos até o comecinho da noite de quinta.

Antônia Delfin saiu do Tiradentes para ir comprar um ventilador
Foto: Deurico/Capital News
“Chegamos acho que eram umas ‘dez para as sete’. Vamos ver se vale à pena. Mas, vale. Mesmo assim, se começar a chover, posso ir embora”, explicou, ao Capital News. Ela estava preocupada com a neta, que a acompanhava. Elas saíram da vila Albuquerque, região da saída para São Paulo [um pouco antes da região das Moreninhas], próximo ao terminal de ônibus Guaicurus.
Para espantar o tédio
Você tem é que colocar a carta da mesma cor ou do mesmo número em cima. Mas, tem carta especial que obriga a comprar carta. Ganha quem conseguir ficar sem nenhuma carta na mão.
Esse é o jogo de cartas chamado Uno. Não é que tinha uma gurizada brincando ali na fila. Eles estavam tímidos e não quiseram conversar muito.
Eles estavam no meio da fila. Lá na frente, aliás, na segunda posição da fila, Tânia Santos, teimava com a antena da televisão para tentar ver alguma coisa. “Olha aí. Agora deu certo.”
O aparelho foi disponibilizado pela empresa – assim como um bebedouro com água mineral e um segurança – para ajudar aos que estavam na fila a passarem o tempo e ficarem menos preocupados.
A televisão foi colocada por volta das 19h da quinta. “Agora que eles colocaram aí. Mas, já dá para assistir à alguma coisa”, explicava Tânia que, enquanto conversava com nossa equipe e com Cilma, levantou-se três vezes para arrumar o sinal.
Tânia saiu do bairro Tiradentes (região nordeste da cidade) e ainda não sabe nem o que vai comprar e nem o quanto vai gastar. “Não sei, não fiz nenhum planejamento”, explica o motivo por ter chegado tão cedo: “Eu vou olhar, ver o que me interessa e se eu preciso e, se der para eu pagar, levar”. O produto pode ser de qualquer tamanho e em qualquer quantidade porque ela já tem um parente que vai ajudá-la a levar as mercadorias para casa, a cerca de 8 quilômetros de distância dali.
As portas abrem às 6h da sexta, 7.

Fila era grande e expectativa e que cobrisse toda a quadra da Barão do Rio Branco à Afonso Pena até as 6h
Foto: Deurico/Capital News
Por: Marcelo Eduardo – (www.capitalnews.com.br)
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