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Quem é Takeshi Kitano: o “Tarantino” japonês

Por Vinícius Mendes

Da coluna Cultura
Artigo de responsabilidade do autor

Famoso no Brasil por "Brother", suas grandes obras permanecem desconhecidas pelos espectadores brasileiros

Crédito: https://www.flickr.com/photos/frenkieb/275256542

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Muitos diretores de cinema japoneses tentaram promover seus filmes no exterior, sem sucesso: ou Cannes rejeitava suas grandes obras ou Hollywood recusava os roteiros sob um argumento de que eram expressões de um "horror japonês" (J-horror). No entanto, um ex-comediante da ilha nipônica conseguiu quebrar esses obstáculos quase por acidente nos anos 1990, se tornando um dos diretores mais celebrados do planeta: Takeshi Kitano.

Kitano também se tornou líder do que veio a ser chamado de New Wave japonês -- um movimento de jovens diretores do Japão que rejeitavam ou subvertiam as convenções de seus antigos estúdios cinematográficos. Apesar de alguns deles, como Jun Ichikawa, Shinji Somai, Sogo Ishii, Hitoshi Yazaki e Shinya Tsukamoto terem começado a filmar nos anos 1980, foi na década seguinte que suas carreiras decolaram.

Naqueles anos, no entanto, Kitano se tornou uma figura carimbada na mídia japonesa, primeiro como membro de um popular manzai (uma peça de comédia encenada em par) da TV do país. Na época, ele usava o nome artístico de "Beat Takeshi", interpretando vários personagens diferentes em um programa que ficou no ar de 1986 a 1989, ganhando versões internacionais nos anos subsequentes. Além desses papéis, Kitano também iniciou sua carreira cinematográfica como guarda de um campo de prisioneiros de guerra em "Merry Christmas, Mr. Lawrence", do diretor japonês Nagisa Oshima, em 1983.

"Onde quer que eu aparecesse, o público começava a rir, não importava qual papel eu fazia. Demorou 15 anos para que ele passasse a me ver para além do comediante", disse Kitano ao jornal Yomiuri Shimbun em uma entrevista em 1998.

Em 1989, o produtor Kazuyoshi Okuyama pediu a Kitano para dirigir "Violent Cop", e ele aceitou mesmo nunca tendo sentado na cadeira de direção na vida. "No começo, eu não sabia muito como movimentar a câmera. Era como se estivesse fazendo fotos, não takes", contou ele na mesma entrevista. A crítica elogiou a película, que estrelava Kitano como um policial violento e vingativo, sucesso que se expressou quando ele ganhou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Yokohama. Por causa da fama de Takeshi Kitano como comediante, o filme ainda fez um bom dinheiro de bilheteria.

Nos filmes que se seguiram, Kitano desenvolveu um estilo caracterizado por longas cenas, movimentos limitados da câmera, humor seco, diálogos curtos e cortados e, em obras sobre gângsters e policiais, explosões repentinas de violência. Ao contrário de muitos diretores de cinema japoneses, que produziam filmes em que os personagens se assemelhavam aos heróis estadunidenses, o diretor criou papéis em que homens em batalhas de rua geralmente apanhavam mais do que batiam. Para ele, aquilo era apenas a realidade.

Nascido em uma área periférica de Tóquio, capital do Japão, Kitano contou na entrevista ao Yomiuri Shimbun que passou a infância vendo brigas entre gângsters da Yakuza. "Normalmente alguém caía depois de um único soco", disse. Em seus filmes, ele passou a ser o ator principal, seja como um gângster psicótico em "Boiling Point" de 1990, ou um sub-chefe de uma gangue no excelente "Sonatine", de 1993. No ano seguinte, depois de um acidente de moto que quase o matou, a cicatriz no rosto se tornou uma máscara que poderia entregar um ar intimidador ou até mesmo assustador aos seus personagens.

Kitano era um completo desconhecido no exterior até "Sonatine" aparecer na lendária seção Un Certain Regard, do Festival de Cannes daquele ano -- seria exibido no Festival de Cinema de Londres também em 1993. Alguns espectadores não se impressionaram, e o ator francês Alain Delon afirmou em uma entrevista que Kitano "não era um ator, porque ele só tinha três expressões faciais".

Outros, porém, elogiaram o filme de Kitano -- sobre uma guerra de gangsters em Okinawa que mistura comédia e violência de formas perturbadoras. Assim, ele ganhou entusiastas em outros países, como o diretor estadunidense Quentin Tarantino, que lançou a obra em sua marca de DVDs nos Estados Unidos -- e que lhe emprestou a alcunha pela qual Kitano ficaria conhecido no país.

Ainda em "Sonatine", o compositor Joe Hisaishi, que elaborou toda a trilha sonora e se tornou colaborador frequente das películas de Kitano, ganhou o prêmio da Academia Japonesa pela obra.

Nos anos seguintes, ele lançaria filmes não tão aclamados como "Getting Any?" e "Kids Return", entre 1996 e 1996, mas foi "Hana-bi", no ano seguinte, que o colocou no hall dos grandes diretores do cinema.

O drama, que retrata um policial (Kitano) que se torna corrupto depois que seu parceiro de trabalho fica paraplégico por causa de um tiro disparado por um gângster, ganhou o Leão de Ouro do Festival de Cinema de Veneza, na Itália, naquele ano. O troféu, que um diretor japonês não ganhava desde 1958, o tornou uma celebridade global do cinema e um gênio do cinema no seu país -- o lendário Akira Kurosawa incluiu "Hana-bi" entre os 100 melhores filmes que viu em toda sua vida.

Kitano ainda tentou barganhar sua fama internacional com "Brother", de 2001, um filme sobre gangsters da Yakuza em Los Angeles, nos EUA, que se tornou a porta de entrada do diretor japonês entre os espectadores brasileiros, mas que foi um fracasso comercial, e depois surfou na fama com "Zatoichi", de 2003, que fez mais dinheiro do que elogios.

Ele voltou a ter sucesso apenas com a trilogia "Outrage", que mistura todos os elementos de um autêntico "Tarantino japonês": armas, sangue, lutas, violência generalizada. O último dos filmes, "Outrage Coda", que estrela Kitano como um gângster da velha escola que mata com emoção, teve uma renda de bilheteria de R$ 580 milhões no Japão.

A coroa de Kitano só foi contestada no ano passado, quando o diretor Hirokazu Kore-eda venceu a Palma de Ouro de Cannes pelo seu drama familiar "Shoplifters". "Ele ainda é um grande diretor, mas ninguém mais o vê liderando o cinema japonês como era antes, e agora há alguns poucos jovens diretores aparecendo e emulando seus trabalhos", disse o professor de Cinema Asiático Aaron Gerow, da Universidade de Yale, ao jornal The Japan Times.

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