Em reunião na manhã desta quarta-feira (14) com a diretoria da Santa Casa e a secretária de Saúde do Estado, Beatriz Dobashi, representantes do Sindicato dos Trabalhadores da Área de Enfermagem de Mato Grosso do Sul (Siems) apresentaram quatro vídeos que revelam o caos na Santa Casa.
Eles alegam que o hospital está superlotado, faltam profissionais e melhores condições de trabalho, além da precária estrutura do local. Os vídeos serão encaminhados na segunda-feira (19) para o Ministério Público Federal e também ao Estadual para que sejam tomadas providências.
Os vídeos mostram a situação das Unidades Intermediárias, em que pacientes em estado crítico, que saem das Unidades de Tratamento Intensivo (UTI) - e ainda estão instáveis por isso ficam na unidade antes de ir para as enfermarias - em condições precárias.
"Eles estão improvisados ali. Ontem foi um caos, tinham apenas dois técnicos para cuidar de 39 pacientes, sendo 33 da neurologia e mais seis que estavam nas intermediárias, em condições totalmente inadequadas", explicou Helena Delgado, presidente do sindicato.
Segundo informações da presidente, desde fevereiro 116 profissionais pediram demissão devido às más condições de trabalho. "Nem 30 novos funcionários foram contratados para repor este quadro, sendo que temos cerca de 230 outros profissionais afastados com atestados, ou por férias ou com problemas de saúde", argumentou Helena.
Há cerca de 1.076 profissionais de saúde entre enfermeiros, técnicos de enfermagem e auxiliares de enfermagem trabalhando atualmente na Santa Casa. Um salário médio de um enfermeiro é de R$ 950,00, em uma jornada de trabalho de 42 horas semanais, para mais com plantões e horas-extras.
Helena afirma que a diretoria do hospital é ciente da situação e alega que faltam profissionais no mercado. "Mas como faltam profissionais se todo ano se formam vários em no mínimo quatro escolas de técnicos e auxiliares e quatro faculdades que formam enfermeiros?!", disse.
A diretoria ainda alega que há dinheiro para ser investido na Santa Casa, mas que o recurso ainda não foi repassado pelo Ministério da Saúde. O último repasse divulgado corresponde a R$ 16 milhões anuais para os setores de urgência e emergência.
O secretário geral do Siems, Lázaro Santana, que esteve presente na reunião afirma que a Santa Casa já recebeu visitas dos conselhos, diretoria do hospital, além de técnicos do Ministério da Saúde.
"Todos são omissos. Estamos voltando à situação denunciada em 2010, em que os profissionais mantinham pacientes respirando pelos ambus - aparelhos de respiração manual - em salas improvisadas, com aparelhos inadequados. Pacientes de CTIs estão em enfermarias e estamos ao ponto de que se mais de um paciente precisar de uma urgência, o profissional tenha que escolher quem atende primeiro e assim facilmente o outro morre", afirmou Lázaro.

Ao mostrar trechos, Lárazo relembra enfermeiros mantendo pacientes vivos por respiração manual em 2010
Foto: Fernanda Kintschner/Capital News
Os vídeos ainda não foram divulgados à imprensa, pois ainda serão protocolados nos Ministérios Públicos e passarão por perícia, mas Helena e Lázaro, descrevem por exemplo, que famílias de pacientes levam ventiladores para os enfermos, sendo que isso é inadequado, o ideal seriam ares-condicionados.
"Locais não são arejados, camas não tem grades, aparelhos estão obsoletos", diz Lárazo ao mostrar partes das imagens ao Capital News feitas nos setores 2ºA e 1ºB da Santa Casa.
"Sem contar que nessas alas precisam ter equipes de terapia intensiva, formada por médicos e enfermeiros de plantão e no momento só há o médico de plantão hospitalar, que está ali para atender emergências no hospital inteiro, ou seja, até ele chegar o pior pode ter acontecido", destaca Helena.
Outras fortes denúncias
O Siems também entregará ao MPF e MPE como parte da documentação da denúncia, laudos da Vigilância Sanitária que apontam total descaso.
No relatório a Unidade de Alimentação e Nutrição, em que são preparadas todas as comidas aos pacientes da Santa Casa, foram encontradas moscas e outros insetos por falta de telas nas janelas; produtos com o prazo de validade vencido; má higiene em alimentos e na conservação e preparo dos leites e nem sequer um lavatório apenas para as mãos.
"Isso comprova que estamos suscetíveis a infecções generalizadas", confirma Helena que ainda aponta no relatório da Vigilância que os imobiliários estão enferrujados e procedimentos são feitos em pacientes na sala de expurgo.
"A sala de expurgo são colocados tudo o que precisa ser descartado, o que está contaminado, por exemplo e lá são feitos parte de um dos procedimentos de lavagem intestinal, expondo pacientes e profissionais a todo tipo de riscos", destacou Helena.
No relatório também mostra que há apenas um aparelho desfibrilador - usado para ressuscitação em paradas cardíacas - para toda ala de cardiologia da Santa Casa, sendo que o ideal seria um para cada cinco leitos.
