Freud dizia que o sintoma é um substituto de algo que foi recalcado. Ele não é um erro, mas uma solução provisória. Por isso, o sintoma deve ser escutado, não eliminado. Mas nossa sociedade deseja eliminar todos os incômodos. A medicina frequentemente busca aliviar os sintomas, a religião pode oferecer respostas imediatas, e o mercado transforma o próprio sofrimento em oportunidade de consumo, com isso, vemos uma dificuldade cada vez maior em permanecer diante daquilo que dói.
Mas o sintoma é insistente: ele se transforma, muda de lugar, retorna. O sintoma insiste em voltar porque ele é o portador de uma verdade, uma verdade que o sujeito insiste em ignorar. Dessa forma, escutar o sintoma é escutar aquilo que está escondido, interditado, silenciado.
A psicanálise não trata de curar os sintomas no sentido comum da palavra, ela os escuta e os interroga, na busca de que o sintoma que incomoda o sujeito se transforme em palavras. Porque um sintoma que se nomeia já não é o mesmo. Dessa forma, ao se dizer e nomeá-lo, pode-se abrir caminho para um novo modo de estar no mundo.
Nos tempos atuais, o sofrimento psíquico se manifesta em formas cada vez mais silenciosas: depressões disfarçadas de sorrisos, ansiedades disfarçadas de produtividade, traumas encobertos por espiritualidades vazias. Mas o sintoma resiste e, nesse contexto, ele tem o seu valor, pois é ele que aponta que algo não vai bem. É ele que diz o que o sujeito ainda não pode dizer.
Talvez o maior equívoco do nosso tempo seja acreditar que toda dor precisa ser imediatamente eliminada. Nem todo sofrimento é apenas um problema a ser resolvido; às vezes, ele é uma pergunta que ainda não encontrou palavras. O sintoma, nesse sentido, não aparece simplesmente para atrapalhar a vida do sujeito, mas para revelar que existe algo ali que precisa ser escutado.
Silenciar o sintoma pode até trazer um alívio momentâneo, mas, muitas vezes, o simples alívio do sintoma pode não produzir transformação. Além do mais, aquilo que não encontra espaço para ser dito encontra outras formas de retornar. O que é recalcado não desaparece: continua insistindo, se desloca e reaparece, muitas vezes, onde menos esperamos. É por isso que a psicanálise oferece algo que parece cada vez mais raro em nossa atualidade: tempo para escutar. Tempo para que o sujeito possa falar, associar, lembrar, questionar e, sobretudo, encontrar as palavras para aquilo que durante tanto tempo só conseguiu expressar através do sofrimento.
Talvez o sintoma não seja aquilo de que precisamos nos livrar, mas aquilo que precisamos compreender. E quando conseguimos escutá-lo, ele pode deixar de ser apenas uma fonte de sofrimento e tornar-se uma possibilidade de mudança e transformação.
Porque, no fim, existem dores que não pedem apenas para desaparecer, elas pedem para ser compreendidas, pois algumas verdades só conseguem chegar até nós quando, finalmente, estamos dispostos a escutar aquilo que o sintoma tenta nos dizer.
*Wanderson R. Monteiro
Autor de São Sebastião do Anta - MG.
Bacharel em Teologia, Pedagogo.
Psicanalista.
Escritor.
Dr. Honoris Causa em Literatura
e Dr. Honoris Causa em Jornalismo.
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