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Opinião Domingo, 23 de Agosto de 2026, 13:25 - A | A

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Esteja Aqui e Agora

Por Wanderson R. Monteiro*

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Wanderson R. Monteiro

Wanderson R. Monteiro

Seus pais voltaram a conversar, e Kaya continuou revisando mentalmente os passos para a peça do dia seguinte.
Se ao menos soubesse que jamais vestiria a fantasia feita sob medida, cuja prova aconteceria no ensaio daquela tarde, e que nunca subiria com seus colegas no palco do teatro para ouvir, ao final, os aplausos entusiasmados dos pais e irmãos dos dançarinos, e que tampouco comeria em seu restaurante favorito após o espetáculo, que muito menos pediria a maior sobremesa do cardápio... Se desconfiasse por um segundo sequer de que jamais entraria de novo naquele carro e de que não veria Pipo e Lesedi naquela noite, com certeza se importaria menos com sua sequência de movimentos.

Mas essa é uma característica curiosa do tempo, e só daqui consigo percebê-la: se soubéssemos o quanto nos resta, se conseguíssemos estimar quando será o fim de tudo que é importante, ficaríamos reféns de sentimentos tão fortes que não seríamos capazes de reagir. Atônitos, desesperados por aproveitar cada segundo, jamais seguiríamos em frente. É a ilusão da continuidade, a fantasia do infinito, que nos empurra adiante. Se soubéssemos quanto tempo nos resta, não teríamos tempo algum.

Distâncias Não Existem,
Bruno Marchese (Rolandinho)

Existe uma tendência humana de viver a vida como se o dia de amanhã fosse imutavelmente certo. Fazemos planos, ensaiamos conversas que talvez nunca aconteçam, imaginamos encontros, viagens, mudanças, projetos, reconciliações e inúmeras possibilidades que colocamos diante de nós como se o futuro fosse um lugar garantido. Pensamos no que faremos quando tivermos mais tempo, quando tivermos mais dinheiro, quando estivermos menos cansados, quando as coisas estiverem mais tranquilas, quando finalmente conseguirmos resolver aquilo que hoje nos incomoda. E, enquanto planejamos a vida que ainda não chegou, frequentemente deixamos escapar aquela que já está acontecendo diante de nós.

Não é errado pensar e planejar o futuro, pelo contrário, isso é necessário, pois sem isso não haveria projetos, esperança ou a possibilidade de construir alguma coisa que ainda não existe. O problema começa quando o futuro passa a funcionar como uma promessa silenciosa de que teremos tempo suficiente para realizar tudo aquilo que estamos adiando. É nesse ponto que precisamos ter cuidado, pois começamos a viver como se tivéssemos uma garantia de que haverá um amanhã para podermos realizar tudo aquilo que estamos deixando para depois.

A vida não nos entrega um calendário com a data da última página, não coloca sobre a mesa uma contagem regressiva que nos permita organizar cuidadosamente nossos afetos, nossos desejos e nossas prioridades. Não sabemos quando será a última vez que tomaremos café com alguém que amamos, quando será a última conversa, o último abraço, a última vez em que veremos determinada paisagem ou entraremos pela porta de nossa própria casa. E, talvez, seja essa ignorância com relação ao fim de nossos dias que nos permita continuar vivendo, pois, se soubéssemos exatamente quanto tempo nos resta, poderíamos ficar tão assustados diante da finitude que perderíamos a capacidade de experimentar aquilo que ainda existe.

Como escreveu Bruno Marchese no trecho acima, “a ilusão da continuidade, a fantasia do infinito, que nos empurra adiante” talvez seja uma das grandes forças que sustentam nossa existência diária. É fácil perceber que precisamos acreditar que haverá outro dia, outra oportunidade, outro encontro, outra chance de dizer aquilo que não dissemos. Mas existe uma grande diferença entre reconhecer que provavelmente teremos um amanhã e viver como se tivéssemos plena certeza de que esse amanhã nos pertence.

Somos finitos, e essa finitude de todas as coisas, inclusive a nossa, tem a última palavra. Ela não avisa quanto tempo nos falta, não negocia conosco, não espera que terminemos nossos planos e nem pergunta se estamos preparados para partir. Por isso, os pensamentos e planos que tanto perdemos tempo imaginando, ensaiando, podem nunca chegar a acontecer de verdade. Dessa forma, vivemos dizendo que depois visitaremos aquela pessoa, depois retomaremos aquele projeto, depois descansaremos, depois viajaremos, depois diremos que amamos, depois pediremos perdão... E o “depois”, que deveria ser apenas uma palavra referente ao futuro, passa a se transformar em um lugar imaginário onde depositamos tudo aquilo que não estamos dispostos a viver agora.

A psicanálise pode nos ajudar a compreender que nem sempre adiamos porque nos falta tempo. Às vezes, adiamos porque o desejo também pode provocar angústia. É mais confortável imaginar uma vida possível do que confrontar a responsabilidade de tentar realizá-la; é mais seguro ensaiar mentalmente uma conversa do que realmente falar; é menos arriscado fantasiar uma mudança do que atravessar o desconforto necessário para mudar. O futuro, enquanto permanece imaginário, é perfeito porque não pode nos frustrar. Nele podemos ser aquilo que desejamos, dizer aquilo que gostaríamos de ter dito e construir uma vida sem os obstáculos que a realidade inevitavelmente apresenta. O problema é que ninguém vive no futuro imaginado. Vivemos neste instante imperfeito, limitado, contraditório e passageiro.

Talvez aproveitar o presente não signifique fazer tudo aquilo que desejamos, mas perceber aquilo que estamos fazendo enquanto a vida acontece. Signifique olhar verdadeiramente para quem está diante de nós, ouvir uma conversa sem estar mentalmente em outro lugar, saborear uma refeição sem transformá-la em mera interrupção entre duas obrigações, abraçar alguém sem pressa, permitir-se rir, descansar sem culpa e reconhecer que, embora a vida continue exigindo de nós planos e responsabilidades, nenhuma dessas coisas deveria nos fazer esquecer que o único momento em que efetivamente existimos é este.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja quanto tempo ainda temos, mas o que estamos fazendo com o tempo que está acontecendo agora. Talvez devêssemos parar, por alguns instantes, de ensaiar a vida que gostaríamos de viver e prestar atenção à vida que efetivamente estamos vivendo. Porque, no fim, podemos descobrir que passamos tanto tempo esperando o momento certo que não percebemos que o momento estava passando por nós.

Por isso, devemos nos preocupar em estar aqui e agora para podermos abraçar aqueles que amamos enquanto ainda temos tempo. Para dizer aquilo que queremos dizer para essas pessoas enquanto ainda podemos, para ouvir e dar atenção àqueles que conversam conosco. Não porque amanhã pode não chegar, mas porque ninguém pode garantir que ele trará consigo todas as possibilidades que hoje imaginamos. O futuro pode ser bom, mas ele nunca foi uma promessa. O presente, porém, é a única parte da vida que, neste instante, ainda podemos chamar de nossa.


*Wanderson R. Monteiro
Autor de São Sebastião do Anta - MG.
Bacharel em Teologia, Pedagogo.
Psicanalista.
Dr. Honoris Causa em Literatura e Dr. Honoris Causa em Jornalismo.

 

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