A expansão do etanol de milho no Centro-Oeste está criando uma nova demanda para o agronegócio: a biomassa utilizada na geração de energia das usinas. Em Mato Grosso do Sul, o movimento encontra uma cadeia florestal já consolidada, construída ao longo de mais de uma década de crescimento da silvicultura.
Diferentemente das usinas de cana-de-açúcar, que aproveitam o bagaço da moagem para alimentar as caldeiras, as plantas tradicionais de etanol de milho precisam recorrer a fontes externas de biomassa, principalmente cavacos e resíduos de madeira de eucalipto.
Com a chegada de novos projetos, a disponibilidade dessa matéria-prima passa a fazer parte da própria equação econômica das usinas.
Para o analista de Economia da Aprosoja/MS, Raphael Gimenes, o desafio não está apenas no volume de madeira existente no Estado, mas também na localização das florestas, produtividade, finalidade da madeira, contratos e custos de transporte.
“O crescimento da indústria de etanol de milho amplia a demanda por biomassa e cria uma nova variável econômica para o setor. Não basta olhar apenas para a quantidade de madeira disponível no Estado. É preciso avaliar onde essa madeira está, qual é o seu custo de produção e transporte e quanto desse estoque poderá efetivamente ser destinado à geração de energia”.
MS parte de uma estrutura florestal consolidada
Dados utilizados pela Aprosoja/MS, por meio do projeto SIGA-MS, apontam aproximadamente 1,985 milhão de hectares de eucalipto na safra 2025/2026.
A concentração da indústria de celulose nas regiões de Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo contribuiu para a formação de uma cadeia que envolve produção florestal, viveiros, colheita, transporte e fornecedores.
Segundo Gimenes, essa estrutura reduz o desafio inicial de abastecimento das novas usinas, mas não significa que a oferta de biomassa seja ilimitada.
“Mato Grosso do Sul possui uma estrutura florestal que reduz o desafio inicial de abastecimento, mas isso não significa que a oferta seja ilimitada. A expansão das usinas pode aumentar a competição pela biomassa e, principalmente, alterar o preço do insumo em determinadas regiões”.
A localização também é um fator determinante. Quanto maior a distância entre a floresta e a indústria, maior tende a ser o peso do transporte no custo final da biomassa.
“Em biomassa, a localização é fundamental. Uma floresta pode estar disponível no Estado, mas, se estiver distante da usina, o custo do transporte pode reduzir ou até eliminar a vantagem econômica desse fornecimento”.
Expansão do etanol movimenta outras cadeias
A indústria de etanol de milho também amplia a demanda pelo próprio cereal e cria novos mercados para os produtores.
Em Mato Grosso do Sul, a Inpasa já possui unidades em Dourados e Sidrolândia. Após ampliação autorizada pela ANP, a planta de Sidrolândia passou a ter capacidade anual de 800 milhões de litros de etanol, além de 480 mil toneladas de DDGS, 46 mil toneladas de óleo de milho e 465 GWh de energia elétrica renovável.
Outro projeto está em implantação em Nova Alvorada do Sul. A Atvos iniciou, em julho de 2026, a construção de sua primeira planta de etanol de milho no Estado, integrada à unidade Santa Luzia.
O projeto prevê processamento de 642 mil toneladas de milho por ano, produção de 273 milhões de litros de etanol, 183 mil toneladas de DDG e 13 mil toneladas de óleo de milho, com investimento superior a R$ 1 bilhão.
A expansão também fortalece a oferta de coprodutos para outras atividades, especialmente a pecuária e a produção de ração.
Desafio será acompanhar o crescimento
Apesar da estrutura florestal existente, ainda não há um estudo público específico que dimensione quanto de biomassa energética Mato Grosso do Sul precisará para acompanhar a expansão projetada do etanol de milho.
Por isso, a velocidade de implantação das novas usinas, os preços regionais da madeira e a distância entre as áreas florestais e os polos consumidores devem ser acompanhados nos próximos anos.
Para a Aprosoja/MS, a expansão da indústria pode gerar efeitos simultâneos nos mercados de milho, madeira, terras, arrendamento, logística e coprodutos.
Com uma base florestal consolidada e uma indústria de biocombustíveis em crescimento, Mato Grosso do Sul parte de uma condição diferente de outros estados do Centro-Oeste. O desafio será equilibrar a oferta de biomassa com o avanço da demanda e entender como essa nova dinâmica poderá alterar custos, preços e oportunidades para o agronegócio.
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