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Transparência

Relatório aponta crise financeira e falhas de gestão no Consórcio Guaicurus

Documento aponta dívidas, frota envelhecida e risco de nova paralisação do transporte coletivo

João Gabriel Vilalba
Capital News

Divulgação/PMCG

Relatório aponta problemas na gestão do Consórcio Guaicurus

Relatório aponta problemas na gestão do Consórcio Guaicurus

Os primeiros relatórios preliminares da intervenção no Consórcio Guaicurus foram apresentados à prefeita Adriane Lopes e também à Câmara Municipal de Campo Grande nesta terça-feira (22). Os documentos apontam problemas financeiros, frota sucateada e falhas de gestão no transporte coletivo da Capital.

Ainda de acordo com os documentos, o retrato financeiro encontrado no dia em que a intervenção assumiu o controle revelou uma situação de insolvência imediata.

Em 16 de junho de 2026, as empresas do consórcio dispunham de apenas R$ 415,2 mil em caixa, valor insuficiente para arcar com o adiantamento salarial dos motoristas e demais funcionários, que ultrapassava R$ 1,03 milhão.

Além disso, o relatório aponta outros problemas graves, como a utilização quase total das linhas de crédito e o elevado volume de dívidas relacionadas à operação da frota.

Para os interventores, o risco de uma nova paralisação total do sistema era considerado concreto, atual e iminente diante da situação encontrada no Consórcio Guaicurus.

Frota envelhecida e queda de confiabilidade

No eixo operacional, o diagnóstico confirmou uma degradação significativa da prestação do serviço à população de Campo Grande.

De acordo com o documento, a idade média da frota chegou a 10,4 anos, mais que o dobro do limite máximo estabelecido em contrato, de cinco anos. Dos 460 veículos do sistema, 210 foram fabricados até 2015.

Outro ponto identificado foi a queda na demanda de usuários. Entre 2023 e 2025, o número de viagens realizadas caiu cerca de 14%, enquanto a quilometragem percorrida recuou 15,2%, mesmo sem redução no número total de veículos. O total de passageiros pagantes diminuiu 12,3%.

O relatório também apontou inadimplência contratual. Segundo o documento, os seguros obrigatórios da frota estavam inadimplidos desde 2016 e nenhum dos 11 indicadores de desempenho previstos no contrato era efetivamente calculado pelas empresas.

Relatório questiona relação entre crise e tarifa

Nos últimos anos, o Consórcio Guaicurus alegou que os problemas financeiros da empresa estavam relacionados ao desequilíbrio econômico-financeiro do contrato e à necessidade de revisão dos valores envolvidos na operação, incluindo questões relacionadas às tarifas e aos subsídios públicos.

Um dos pontos centrais do relatório diz respeito a esse argumento. Segundo a equipe de intervenção, os problemas financeiros não podem ser atribuídos exclusivamente a questões relacionadas à tarifa ou à insuficiência de subsídios públicos.

Embora o déficit operacional seja reconhecido, o documento aponta que o montante de despesas apresentado pelas empresas inclui custos gerados por decisões consideradas ineficientes pela equipe de intervenção. Segundo o relatório, esses valores não devem ser automaticamente repassados aos usuários ou ao Tesouro Municipal.

Entre os fatores apontados como capazes de distorcer o custo real do sistema estão:

Manutenção predominantemente corretiva: ausência de programas preventivos, o que teria provocado quebras recorrentes durante a operação e compras emergenciais com custos elevados.

Subutilização de tecnologia: o sistema ERP Globus era utilizado de forma precária, abaixo de 40% de sua capacidade, com manutenção de controles paralelos em planilhas, aumentando a possibilidade de erros administrativos.
Controles frágeis de almoxarifado: foram identificadas discrepâncias de estoque, requisições feitas manualmente em papel e desativação do módulo de controle de garantias de peças.

Custos alheios à operação: o relatório cita transações entre empresas relacionadas, despesas ligadas a imóveis de partes relacionadas e encargos moratórios decorrentes de problemas na gestão tributária.
Consórcio contesta apontamentos do relatório

Em defesa, o Consórcio Guaicurus alegou que o desequilíbrio econômico-financeiro teria sido provocado pela ausência de revisões contratuais em 2019 e 2026, além do atraso e do não pagamento integral do subsídio tarifário previsto no quarto termo aditivo, de 2022.

O consórcio afirmou ainda que as falhas apontadas no relatório não decorreriam de sua atuação, mas, segundo a empresa, da falta de cumprimento integral do contrato por parte da Prefeitura de Campo Grande.

A concessionária também declarou que as dívidas apresentadas no relatório parcial da Comissão de Intervenção seriam reflexo do desequilíbrio econômico-financeiro apontado pela empresa ao longo dos anos.

O Consórcio Guaicurus informou que já apresentou seus questionamentos a diferentes autoridades e que continuará a apresentar seus argumentos no processo administrativo.

A empresa afirmou ainda que, independentemente dos relatórios da intervenção, segue empenhada em buscar uma solução para o sistema de transporte público da Capital.

Medidas adotadas durante a intervenção

A equipe de intervenção é comandada pelo advogado Aléxandro Adriano Lisandro de Oliveira e tem como integrantes Rodolfo Bahiense Fernandes, responsável pela área administrativo-financeira; Alexandre Souza Moreira, interventor jurídico; e Robson Tadeu Pereira, interventor operacional. Os interventores recebem remuneração baseada nos salários dos executivos do Consórcio Guaicurus.

Para conter a crise durante o período de até 180 dias, a equipe de intervenção adotou medidas emergenciais nas garagens.

Entre as ações estão a centralização das compras realizadas pela empresa, o controle dos dados operacionais, o comando unificado entre os setores e a profissionalização do estoque para corrigir falhas apontadas no relatório.

De acordo com o interventor jurídico do Consórcio Guaicurus, Alexandre Souza Moreira, a intervenção seguirá em andamento. Como próxima etapa, será realizada uma auditoria externa para aprofundar a análise da situação financeira e operacional do sistema.

A partir dos resultados, a equipe deverá avançar para a elaboração do relatório final, que servirá de base para a definição dos próximos passos.

Após a conclusão desse processo, caberá à Prefeitura de Campo Grande decidir quais serão os rumos da concessão do transporte coletivo.

 

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