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Redução da jornada exige transição para não encarecer a moradia

Por Yorki Estefan*

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A redução da jornada de trabalho é uma discussão legítima. A melhoria da qualidade de vida do trabalhador é necessária e deve estar no centro dessa discussão. Mas uma mudança dessa dimensão precisa ser feita com responsabilidade, com dados técnicos e com atenção às diferenças entre os setores. Na construção civil, uma decisão abrupta, sem transição e sem compensação, pode ter impacto direto sobre custos, prazos de entrega e preço final dos imóveis.

Sou contrário a levar esse tema para a Constituição. Jornada e escala de trabalho deveriam ser discutidas por meio de negociação coletiva, entre sindicatos patronais e sindicatos dos trabalhadores. É nesse ambiente que se conhecem melhor as realidades de cada atividade, os limites das empresas, as necessidades dos trabalhadores e as condições concretas de produção.

A construção civil é intensiva em mão de obra, funciona por ciclos produtivos e já enfrenta escassez de profissionais qualificados. Se a jornada for reduzida sem ganho equivalente de produtividade, as empresas terão de contratar mais trabalhadores para manter o mesmo ritmo das obras. O problema é que esse contingente não existe hoje no mercado.

Representantes do SindusCon-SP têm alertado que, em alguns cenários, a demanda adicional poderia chegar a 300 mil trabalhadores. Sem essa mão de obra disponível, o resultado tende a ser previsível: obras mais lentas, cronogramas mais longos, atrasos nas entregas e aumento do custo financeiro dos empreendimentos.

As estimativas apresentadas pelas entidades do setor indicam que a redução da jornada poderia elevar o custo das obras em cerca de 20%, com impacto de 5% a 6% no preço final dos imóveis, podendo chegar a patamares ainda maiores em determinadas condições.

Esse aumento não ficará restrito às empresas. Em um mercado já pressionado por insumos, juros elevados, carga tributária e transição da reforma tributária, qualquer elevação relevante no custo do trabalho tende a ser repassada ao consumidor. Na prática, isso pode dificultar ainda mais o acesso à casa própria.

Também precisamos falar de produtividade. Hoje, o Brasil produz cerca de US$ 21 por trabalhador, enquanto nos Estados Unidos esse número chega a US$ 81. Sem ganho de produtividade, reduzir jornada por imposição legal significa apenas elevar o custo unitário do trabalho.

Mas a qualidade de vida do trabalhador não se resume à jornada ou à escala. Ela também depende de ambientes de trabalho mais acolhedores, cidades menos espraiadas, transporte público eficiente e políticas urbanas mais inteligentes. Tudo isso precisa fazer parte da mesma agenda.

A redução da jornada é uma discussão justa. Mas, para produzir justiça real, precisa ser melhor apresentada: com estudos técnicos, negociação coletiva, período de transição seguro e compensações às empresas. Sem isso, o risco é criar aumento de preços em cascata, atrasar obras, reduzir competitividade e prejudicar justamente o consumidor que busca acesso à moradia.

Apenas reduzir horas não é suficiente; também é preciso construir uma agenda mais ampla, capaz de melhorar de fato a vida de quem trabalha e preservar as condições para que as empresas continuem produzindo, investindo e gerando empregos.


*Yorki Estefan
Presidente do SindusCon-SP

 

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