Atualmente vivemos em uma época que se destaca por grandes avanços tecnológicos, e grande parte de nossa sociedade atual tem demonstrado orgulho e satisfação com tais avanços. Nunca se falou tanto em progresso, desenvolvimento, inovação e evolução como em nossos dias, e em nenhuma outra era pôde-se ver um número tão grande de exemplos que fundamentam tais expectativas. A tecnologia avança a passos largos, a ciência ocupa um lugar quase sagrado no imaginário coletivo e a razão se tornou, para muitos, o critério último de verdade. Mas, diante de todo esse cenário, uma pergunta permanece: o ser humano está realmente melhorando?
O discurso que ouvimos todos os dias diz que sim. Que a civilização nos tornou mais humanos, mais tolerantes, mais racionais. Que a barbárie ficou para trás, esquecida em um passado onde as pessoas eram “menos esclarecidas” do que hoje. Contudo, ao olharmos para a sociedade atual e para a realidade que nos cerca, o contraste é enorme, mostrando que esse discurso repetido incansavelmente contradiz a realidade que vemos e vivemos todos os dias. Guerras continuam a ser travadas, atrocidades motivadas por ganância e poder são justificadas por discursos técnicos, vidas são descartadas com frieza estatística e o sofrimento humano é, muitas vezes, tratado como simples efeito colateral desse “progresso”.
Dostoiévski, em Memórias do Subsolo, critica a crença de que a civilização aperfeiçoaria moralmente o homem. Sua reflexão sugere que o progresso não elimina a violência, apenas transforma suas formas de manifestação. O homem moderno não deixou de ser sanguinário, ele apenas mudou a forma de expressar essa violência. A brutalidade agora vem acompanhada de justificativas racionais, de relatórios, de gráficos e de discursos bem articulados, criados e proferidos com a única intenção de enganar, de mascarar ações grotescas e motivos pessoais. Mata-se em nome da ordem, da paz, do bem comum.
O problema não está no avanço tecnológico em si, mas na crença de que o progresso material produziria automaticamente um progresso moral. A história mostra exatamente o contrário. Quanto mais meios o homem possui, maior também é sua capacidade de destruição. A ciência, quando desvinculada de princípios morais sólidos, não humaniza, ela apenas potencializa aquilo que o homem já é.
Nossa sociedade parece ter invertido prioridades. Investimos pesadamente no desenvolvimento de ferramentas, mas negligenciamos a formação do caráter. Celebramos a inteligência técnica enquanto desprezamos a sabedoria moral. E o resultado é uma civilização altamente eficiente, porém profundamente desorientada, guiada mais pelo egoísmo do que pelo bem comum.
Talvez a verdadeira crise de nosso tempo não seja econômica, política ou tecnológica, mas uma crise de consciência. Há muito tempo já venho dizendo que a maior crise de nossa atualidade é a crise moral do homem pós-moderno; pois é ela que gera todas as outras crises. Enquanto continuarmos acreditando que o avanço da razão basta para corrigir as deformações do coração humano, continuaremos repetindo os mesmos erros, apenas com instrumentos mais modernos e sofisticados.
Diante disso, podemos perceber que o progresso, quando não é acompanhado por princípios, não nos eleva, ele apenas nos torna mais perigosos.
*Wanderson R. Monteiro
Autor de São Sebastião do Anta - MG.
Bacharel em Teologia, Pedagogo.
Psicanalista.
Autor de “Cosmovisão em Crise: A Importância do Conhecimento Teológico e Filosófico Para o Líder Cristão na Pós-Modernidade”, “Crônicas de Uma Sociedade em Crise”, entre outros.
Dr. Honoris Causa em Literatura e Dr. Honoris Causa em Jornalismo.
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