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Opinião Domingo, 14 de Junho de 2026, 13:23 - A | A

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Opinião

A Força do Povo e a Ilusão do Número

Por Wanderson R. Monteiro*

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Vivemos sob uma crença quase dogmática de que o número valida tudo, que a quantidade de pessoas apoiando uma determinada causa automaticamente traz validade a ela a transformando em algo inquestionável, mesmo havendo muitos indícios de que a mesma possa estar errada. Com isso, os números passam a sensação de verdade e realidade, e as multidões apoiando determinada causa ou ponto são confundidas como aqueles que estão com a razão, por conta da adesão e não da veracidade dos pontos defendidos, de forma que o volume passa a ser confundido com verdade, e a repetição de jargões como se fossem fatos inquestionáveis. Dessa forma, passamos a pensar que quanto mais pessoas repetem uma ideia, mais verdadeira ela parece se tornar. Contudo, essa associação automática entre quantidade e justiça é uma das maiores ilusões do mundo moderno.

Uma coisa é fato: a força do povo é real, incontestável e imensa. Ela constrói impérios, derruba governos, sustenta instituições e move a história. Mas essa força, quando analisada em sua essência, é apenas energia. E toda energia que não é devidamente dirigida e aplicada em prol de objetivos corretos e concretos não constrói nem gera frutos duradouros. Pelo contrário: ela se dissipa, explode ou é capturada por aqueles que sabem direcioná-la, utilizando-a para alcançar objetivos que, muitas vezes, não trazem benefício algum ao próprio povo, que acaba reduzido a simples instrumento nas mãos de terceiros.

A força coletiva, por si mesma, não possui um padrão moral definido. O grupo, enquanto força, não distingue o justo do injusto, o verdadeiro do falso, o construtivo do destrutivo. Ele apenas executa, apenas segue impulsos e ordens. Por isso, a ideia de que o povo, ou um determinado número de pessoas, por ser maioria, está automaticamente certo, revela uma compreensão infantil da dinâmica social. Essa constatação se aprofunda quando observamos os princípios analisados por Freud em Psicologia de Grupo e a Análise do Ego, onde ele demonstra que até mesmo indivíduos com elevada cultura e sólidos princípios morais, quando inseridos em um grupo psicológico, tendem a abandonar seus valores individuais para se adequar aos desejos e às ideias dominantes da massa.

Isso mostra que, além de a força coletiva não possuir, em si mesma, um senso moral próprio, dentro da psicologia das massas até mesmo indivíduos bem formados podem se corromper, submetendo-se aos impulsos do grupo. Dessa forma, quando a força do povo se movimenta sem clareza, quando é aplicada sem objetivos bem definidos, ela se transforma em uma força inútil. Pode impressionar pelo barulho, pela quantidade e pela intensidade, mas carece de propósito e de alvos elevados. Nessas condições, as ações deixam de ser guiadas pela razão e passam a ser conduzidas pela emoção, tornando o povo extremamente vulnerável à manipulação.

A história demonstra, repetidas vezes, que grandes tragédias não foram produzidas pela ausência de força popular, mas pelo seu uso desordenado. Onde faltam direção e objetivos concretos, sobra energia desperdiçada, extraviada ou roubada. Onde não reina o intelecto nem a sabedoria, reina a força bruta. A força do povo só se transforma em poder verdadeiro quando deixa de ser instintiva e passa a ser consciente. Somente assim ela pode deixar de ser um simples instrumento nas mãos de lideranças mal-intencionadas para se transformar em uma força verdadeiramente transformadora e criativa na busca de alcançar o bem supremo para todo o povo.


*Wanderson R. Monteiro
Autor de São Sebastião do Anta - MG.
Dr. Honoris Causa em Literatura e Dr. Honoris Causa em Jornalismo.
Bacharel em Teologia, Pedagogo.
Psicanalista.
(São Sebastião do Anta – MG)

 

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