A facilidade de trocar mensagens pelo WhatsApp aproximou médicos e pacientes, mas também tem levantado dúvidas sobre os limites dessa comunicação. Um relato compartilhado por uma influenciadora, que afirmou ter sido bloqueada pela pediatra da filha após tentar contato pelo aplicativo, dividiu opiniões nas redes sociais e reacendeu o debate sobre até onde vai a obrigação do profissional em responder mensagens fora da consulta.
Segundo a mãe, a pediatra oferecia um pacote de consultas que incluía atendimento via WhatsApp. Ela não contratou o serviço, mas afirma que havia recebido autorização para enviar mensagens em caso de dúvidas. Ao procurar a médica porque a filha apresentava sintomas de resfriado, percebeu que seu número havia sido bloqueado. Mas será que essa atitude é correta?
Para a advogada Giovanna Trad, especialista em Direito Médico, a realização de uma consulta não garante ao paciente acesso permanente ao médico pelo celular. "O médico não é obrigado a fornecer seu número particular nem a permanecer disponível após a consulta. Ele pode estabelecer que o contato seja feito pelos canais oficiais do consultório, dentro do horário de funcionamento e com prazo definido para resposta", explica.
Mãe de três crianças, Karen Andrielly afirma que o contato com os médicos traz tranquilidade e segurança e que ela não imagina ter o número bloqueado pela pediatra dos filhos. "Para mim, esse acesso é extremamente importante, principalmente pelo fato de ser mãe atípica. Tirar dúvidas e receber direcionamentos em momentos urgentes faz toda a diferença. Isso fortalece o vínculo entre médico e paciente e traz mais segurança aos pais, especialmente em situações de preocupação, mas sempre com bom senso", relata.
A pediatra Dra. Susana Bakarji acredita que o WhatsApp pode ser um importante aliado no acompanhamento infantil, desde que haja respeito aos limites da relação profissional. Acredito que o WhatsApp seja um excelente suporte no acompanhamento das crianças, mas o respeito aos limites é essencial para que essa relação funcione bem. Nós, médicos, também temos família, momentos de descanso, lazer e cuidados pessoais. Além disso, o aplicativo não substitui uma consulta presencial nem deve ser utilizado em situações de urgência ou emergência. Nesses casos, a orientação é procurar imediatamente um pronto-socorro", destaca.
Segundo a médica, ao disponibilizar seu contato, costuma orientar as famílias de que responderá assim que possível. "De modo geral, elas se mostram bastante compreensivas", afirma.
A advogada ressalta que o profissional pode optar por responder dúvidas pontuais, como orientações sobre o uso de uma medicação já prescrita ou confirmação de dosagem, mas isso não cria uma obrigação permanente de atendimento. "É uma facilidade que o médico pode oferecer, mas não um dever decorrente da consulta. Por isso, é fundamental que esses limites sejam combinados desde o início, para evitar frustrações e preservar uma relação transparente entre médico e paciente", pontua.
Sobre a cobrança pela disponibilidade no aplicativo, Giovanna esclarece que ela é permitida, desde que o paciente saiba exatamente o que está contratando. "O médico está disponibilizando seu tempo profissional fora das consultas. Esse serviço pode ser remunerado, mas todas as condições precisam ser claras para evitar interpretações equivocadas."
Quanto ao bloqueio no aplicativo, a especialista afirma que, isoladamente, a medida não configura infração ética. "Não existe norma que obrigue o médico a manter pacientes em seu WhatsApp particular. O mais importante é que as expectativas sejam alinhadas desde o início, com regras claras, documentação do atendimento e definição dos canais de comunicação. Isso protege tanto o paciente quanto o profissional", conclui.
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