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Política

Decisão de Trump sobre PCC e CV coloca fronteira de Mato Grosso do Sul no radar dos EUA

Medida adotada pelos Estados Unidos pode intensificar monitoramento financeiro e ações de inteligência na região de fronteira

João Gabriel Vilalba
Capital News

Com a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de classificar as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, a região de fronteira de Mato Grosso do Sul com Paraguai e Bolívia volta ao centro das atenções internacionais.

Isso ocorre porque ambas as facções possuem forte atuação nessas regiões. Enquanto o Paraguai é apontado como um dos principais produtores de maconha da América do Sul, a Bolívia é conhecida internacionalmente pela produção e exportação de cocaína.

O Comando Vermelho concentra sua atuação principalmente na Amazônia brasileira, enquanto o PCC domina rotas de tráfico nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país, utilizando estruturas logísticas ligadas ao Porto de Santos.

A prisão da influenciadora Deolane Bezerra durante a Operação Vérnix, sob suspeita de envolvimento em esquema de lavagem de dinheiro para organização criminosa, além da prisão de Gerson Palermo, na Bolívia, e sua transferência para Campo Grande na última quarta-feira (27), reforçam a preocupação das autoridades com a expansão das facções dentro da economia brasileira.

Outro fator que aumentou o alerta foi a Operação Fluxo Oculto, nova fase da Operação Carbono Oculto, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo e pela Receita Federal. A investigação apura um esquema de lavagem de dinheiro estimado em R$ 26 bilhões ligado ao PCC, envolvendo fintechs e fundos de investimento na região da Faria Lima, um dos principais centros economicos do país. 

Além disso, a execução do empresário e delator do PCC, Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, morto a tiros de fuzil no Terminal 2 do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em 2024, recolocou em debate o avanço e a sofisticação das facções criminosas no Brasil. 

Fronteira de MS e expansão das facções

Nas últimas décadas, a fronteira entre Mato Grosso do Sul e Paraguai se consolidou como uma das principais rotas do tráfico internacional de drogas e da lavagem de dinheiro na América do Sul.

A região foi disputada por nomes conhecidos do narcotráfico, como Fahd Jamil, Jorge Rafaat Toumani, Fernandinho Beira-Mar, Luiz Carlos da Rocha, o “Cabeça Branca”, o ex-major da Polícia Militar Sérgio Roberto de Carvalho e, mais recentemente, Gerson Palermo.

As disputas entre grupos criminosos frequentemente esbarraram em esquemas de proteção política, policial, empresarial e institucional que garantiam sustentação às operações ilegais.

A execução de Jorge Rafaat Toumani, em Pedro Juan Caballero, no Paraguai, abriu espaço para a expansão do PCC na fronteira. Desde então, a facção passou a ampliar seu controle sobre as rotas internacionais de drogas e armas na região.

CIA pode ampliar atuação?

A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pode abrir novas frentes de atuação dos Estados Unidos, principalmente nas áreas financeira, jurídica e de inteligência.

Divulgação

Marco Rubio

Acordo de combate ao narcotráfico assinado pelo Secretário de Relações Exteriores, Rubén Ramírez, pelo Secretário de Estado, Marco Rubio, e pelo Secretário Adjunto de Segurança Interna, Troy Edgar

Um dos principais impactos seria na chamada “asfixia financeira”. Bancos e instituições que operam com o sistema financeiro norte-americano poderiam ser impedidos de movimentar recursos ligados direta ou indiretamente às facções.

Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as facções criminosas brasileiras movimentaram cerca de R$ 146 bilhões apenas em 2022.

O PCC, por exemplo, possui estrutura organizacional dividida em setores conhecidos como “sintonias”, responsáveis por áreas como tráfico, logística, finanças e comunicação. Essa organização permitiu à facção ampliar sua presença em diversos setores da economia informal e em esquemas de lavagem de dinheiro.

Especialistas apontam, porém, que uma eventual intervenção militar norte-americana no Brasil é considerada improvável neste momento. O cenário mais provável seria o fortalecimento da cooperação internacional e do monitoramento financeiro.

Atualmente, o Brasil mantém cooperação com órgãos norte-americanos, especialmente agências ligadas ao combate ao narcotráfico. Com a classificação das facções como organizações terroristas, parte das investigações poderia migrar para estruturas ligadas à inteligência internacional dos Estados Unidos, ampliando o nível de sigilo das operações.

Nesse contexto, Mato Grosso do Sul pode ganhar ainda mais importância estratégica devido aos cerca de 1,5 mil quilômetros de fronteira seca com Paraguai e Bolívia.

A preocupação aumenta especialmente na região de Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, cidades consideradas centrais nas rotas do tráfico internacional.

Recentemente, o Paraguai autorizou a presença de militares e agentes de inteligência dos Estados Unidos em seu território, medida que já era vista como um indicativo de maior aproximação entre os dois países no combate às facções criminosas sul-americanas.

Com isso, a região de fronteira de Mato Grosso do Sul pode passar a conviver com um sistema ainda mais intenso de monitoramento internacional, incluindo uso de satélites, drones e inteligência cibernética voltada ao combate ao crime organizado.

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