O impasse entre a Prefeitura de Campo Grande e o Consórcio Guaicurus vem ganhando contornos de uma novela de longos capítulos e que ainda deve se estender por vários meses. Na última terça-feira (21), a empresa responsável pela operação do transporte coletivo da Capital informou que foi vendida para a HP Mobilidade, em valores que não foram divulgados à imprensa.
A nova empresa, com sede em Goiânia (GO), será responsável por assumir as empresas que integram o Consórcio Guaicurus e, consequentemente, todos os direitos e obrigações relacionados à concessão do transporte coletivo de Campo Grande.
Durante todo esse processo, o Consórcio Guaicurus divulgou uma nota informando que, no dia 18 de julho, dois dias antes da concretização da venda, foi constituída a empresa Maas Administração e Participações Ltda., fato que gerou questionamentos sobre a operação.
De acordo com o Consórcio, após a autorização do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e a verificação da regularidade do processo, será solicitado ao município o pedido de anuência para a transferência do contrato de concessão.
Enquanto isso, a venda ocorre paralelamente ao processo de intervenção administrativa decretado pela Prefeitura de Campo Grande, que apura possíveis irregularidades na prestação do serviço e pode durar até 180 dias.
A HP Mobilidade também precisará apresentar à Prefeitura e à Câmara Municipal um plano detalhado de melhorias para o transporte coletivo da Capital, incluindo a renovação da frota de ônibus que atualmente apresenta elevado índice de sucateamento.
Durante coletiva de imprensa realizada na última terça-feira (21), a prefeita Adriane Lopes (PP) afirmou que foi surpreendida pelo anúncio da venda e que solicitará à empresa um cronograma de ações e investimentos para a administração do sistema.
"Estamos em um momento de discussão do contrato e precisamos renovar todas as propostas do transporte público. Por isso, queremos ônibus novos, com ar-condicionado em nossa cidade", declarou.
Caso a HP Mobilidade não apresente um projeto considerado adequado pelo município, a Prefeitura poderá não conceder a anuência necessária para a transferência do contrato de concessão.
Justiça e órgãos de controle acompanham o processo
A procuradora-geral do Município, Cecília Saad Cruz Scala, também solicitou que a empresa apresente a documentação referente ao pedido de autorização da operação junto ao Cade.
Em nota, a HP Mobilidade confirmou que a aquisição ainda depende da aprovação dos órgãos competentes.
"Com relação ao processo de aquisição do Consórcio Guaicurus, o Grupo HP informa que ainda existem etapas a serem vencidas, incluindo a aprovação dos órgãos competentes, para que a operação possa ser concluída."
Já o Consórcio Guaicurus confirmou a assinatura do contrato de compra e venda das empresas que compõem o sistema de transporte coletivo da Capital e a criação da Maas Administração e Participações Ltda., sociedade criada especificamente para viabilizar a operação.
"O Consórcio Guaicurus e a Maas Administração e Participações Ltda., sociedade de propósito específico constituída para este fim e integrante do Grupo HP, informam que celebraram, em 18 de julho de 2026, contrato de compra e venda de quotas e outras avenças para a aquisição das quatro empresas que operam o Sistema Integrado de Transporte (SIT) de Campo Grande: Viação Cidade Morena, Jaguar Transportes Urbanos, Viação Campo Grande e Viação São Francisco. A operação foi comunicada ao Poder Concedente, mas ainda existem etapas a serem cumpridas para que possa ser efetivada. A conclusão do negócio e a transferência do controle das empresas estão condicionadas à aprovação das autoridades competentes. As empresas consorciadas reiteram que estão à disposição para o diálogo com o Poder Concedente em busca de soluções que assegurem a continuidade e a qualidade do transporte coletivo de Campo Grande", informou o Consórcio Guaicurus.
Da intervenção à venda
O anúncio da venda do Consórcio Guaicurus ocorreu 35 dias após o início da intervenção administrativa no transporte coletivo de Campo Grande.
A medida foi adotada em meio à crise financeira alegada pela concessionária e diante das constantes reclamações dos usuários, que, ao longo dos anos, denunciam a precariedade dos ônibus que atendem às linhas da Capital, enquanto as tarifas seguem sendo reajustadas.
Também foram apontadas a deterioração das condições operacionais da frota e os riscos à segurança dos passageiros, evidenciados pela idade elevada dos veículos, pelo aumento das reprovações em inspeções técnicas, pelas interdições de ônibus e pelo registro de falhas graves identificadas pelos órgãos fiscalizadores.
O decreto municipal ainda cita o descumprimento da obrigação contratual de manutenção dos seguros obrigatórios da concessão, a omissão de informações essenciais para a fiscalização do serviço, como a Matriz Origem-Destino e o Coeficiente de Integração Física, além de indicadores de risco econômico-financeiro capazes de comprometer a continuidade e a qualidade do transporte coletivo em Campo Grande.
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