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Opinião Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2026, 12:16 - A | A

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Seis lições da COP30 para 2026

Por André Ferretti*

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Por ter sido realizada no Brasil, a Conferência das Partes despertou um interesse inédito entre os brasileiros. E, num cenário em que notícias negativas costumam ecoar com mais força do que conquistas, é importante afirmar que a COP30, apesar da insatisfação manifestada com o texto do acordo final, esteve longe de ser decepcionante.

Pelo contrário, Belém entregou resultados expressivos, trouxe surpresas muito positivas e reforçou a percepção de que estamos avançando, ainda que em um ritmo mais lento do que o desejado, rumo a um novo patamar de ação climática global. Afirmo isso após ter acompanhado, presencialmente, 19 edições desse encontro promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Destaco o fato de que, pela primeira vez, entrou oficialmente na mesa de negociação um roteiro para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis. A construção de mapas do caminho foi apoiada por mais de 80 países. Essa iniciativa será discutida em uma conferência internacional, organizada pela Colômbia em parceria com a Holanda, a ser realizada em abril de 2026 na cidade colombiana de Santa Marta.

Esse compromisso não é simbólico. Três semanas depois da COP30, o governo brasileiro deu o prazo de 60 dias para que sejam estabelecidas diretrizes para desenvolver uma jornada para uma transição energética justa e planejada, com vistas à redução da dependência de combustíveis fósseis no Brasil. O governo da Noruega também já divulgou que tomará medida semelhante.

Esse foi um resultado de grande relevância, sobretudo em um dos temas mais espinhosos das discussões climáticas — nunca antes tratado dessa maneira nas COPs — e que, na COP30, foi estrategicamente conduzido de forma separada da agenda negociada entre os países e aprovada já no primeiro dia. É um sinal concreto de mudança: a energia fóssil deixou de ser um tabu diplomático e entrou na rota política oficial.

Entre todas as conferências que acompanhei, nenhuma se aproximou do que vimos em Belém no que diz respeito à participação da sociedade. A cidade respirou e transpirou COP30. Praças, universidades, centros culturais, ruas e auditórios lotados mostraram que o tema clima não é mais uma conversa restrita a especialistas e negociadores. A mobilização não veio apenas da população local, mas também de brasileiros de todas as regiões e de visitantes de dezenas de países.

A primeira grande lição da COP30 é justamente o poder da participação popular. Ver a pauta climática entrar de fato na vida das pessoas — nas conversas de rua, entre os jovens, em espaços comunitários e no centro da agenda da imprensa — foi um passo enorme. Nunca tivemos no Brasil uma cobertura tão ampla e qualificada sobre o tema. Esse movimento amplia o entendimento coletivo, fortalece comunidades e eleva nosso nível de maturidade para cobrar a implementação de políticas e compromissos. Participação não é simplesmente fazer barulho: é construir conhecimento, contribuir tecnicamente, acompanhar decisões e manter engajamento cotidiano.

Outra lição foi a priorização absoluta da ação para adaptação climática. O que não poderia ser diferente diante da escalada global de desastres. Foram aprovados 59 indicadores do Objetivo Global de Adaptação, lançado o Acelerador Global de Adaptação para apoiar NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) e Planos Nacionais, além da pactuação da meta de triplicar o financiamento até 2035. O desafio agora é montar os instrumentos financeiros para que esses recursos cheguem ao território, às cidades e aos setores produtivos. Sem adaptação, a conta dos impactos será impagável.

O terceiro aprendizado foi a centralidade dada ao oceano, reconhecido como elemento estratégico na agenda climática global. Foram apresentadas quase 500 iniciativas, incluindo os 70 projetos do Blue Package, capazes de responder por até 35% das reduções necessárias de emissões até 2050. Sustentabilidade costeira, economia azul, biodiversidade marinha e Soluções Baseadas na Natureza (SBN) passaram a ocupar o centro da discussão. Falta ainda presença mais explícita nos textos decisórios, mas a virada já aconteceu.

Por falar em SBN, esse assunto foi tratado como eixo transversal, um elemento articulador entre setores: agricultura regenerativa, cidades resilientes, restauração florestal, saúde, energia, turismo, indústria e recursos hídricos. O Brasil tem potencial único para liderar esse campo científico, tecnológico e econômico. Hoje, soluções que conservam a biodiversidade também são oportunidades de negócio e de geração de renda.

O Brasil também teve êxito ao consolidar esta edição como a COP da implementação, conforme se esperava. Mais de 120 planos de ação foram apresentados e debatidos no contexto da Agenda de Ação, indicando uma mudança concreta para a ação. Os próximos meses serão decisivos para transformar esses compromissos em planos e projetos reais, com efeitos palpáveis nos territórios. A transição climática precisa sair definitivamente das salas de negociação e chegar às cidades, nos negócios, na agropecuária, na indústria e no oceano.

Para concluir, a COP30 representou também um resgate da autoestima nacional. O Brasil se projetou como um país maduro e articulador, capaz de construir convergências em um cenário global complexo. Temos agora quase um ano de presidência para sustentar o ritmo das discussões e transformar ambição em acordos concretos. É uma oportunidade estratégica para reposicionar nossa economia na rota da descarbonização, da adaptação e resiliência, da bioeconomia e da inovação ambiental. Precisamos continuar surfando essa onda com determinação, porque os avanços precisam acontecer agora. São lições valiosas que podem inspirar ações práticas no ano que se aproxima.


*André Ferretti
Gerente Sênior de 
Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza.

 

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