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Opinião Domingo, 26 de Maio de 2024, 07:00 - A | A

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Economia

O que a catástrofe gaúcha nos ensina

Por Wilson Aquino*

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O Brasil, infelizmente, enfrenta sérios desafios em sua capacidade de gerir grandes catástrofes naturais. As enchentes no Rio Grande do Sul expuseram a falta de preparo e a ineficácia das medidas preventivas e reativas por parte dos governos, especialmente no âmbito federal. Essa falha na resposta governamental destaca uma desconexão entre a capacidade de previsão e a execução de ações eficazes para minimizar o sofrimento humano e os danos materiais.

Ao contrário do que se observa no poder público, a população demonstrou grande resiliência e nobre espírito de solidariedade. Comunidades locais e de outros estados se organizaram de forma admirável, participando ativamente do resgate de pessoas e animais, além de coordenar a distribuição de mantimentos essenciais para as famílias desabrigadas. Essa mobilização popular é um exemplo claro de como a sociedade pode se unir em momentos de crise, suprindo enormemente as lacunas deixadas pelo Estado.

As intervenções tanto do governo federal quanto do estadual foram marcadas por ineficiências, principalmente no resgate de pessoas e animais e na distribuição de recursos básicos como alimentos, água e agasalhos. Relatos de entraves burocráticos que dificultaram as ações de voluntários, vindos de várias partes do país, são especialmente preocupantes e indicam uma necessidade urgente de revisão nos protocolos de atuação em emergências.

Outra questão crítica é a ausência de um fundo financeiro destinado especificamente para o socorro imediato em catástrofes. Enquanto isso, observa-se uma disparidade nas prioridades de alocação de recursos públicos, com somas de bilhões de reais direcionadas a eventos eleitorais e incentivos culturais, cuja distribuição não atende às necessidades básicas da população mais vulnerável.

A necessidade de uma política nacional de gestão de riscos e desastres é evidente e urgente no Brasil. Essa política deve começar com a criação de um sistema de alerta precoce que seja capaz de detectar sinais de desastres naturais com antecedência suficiente para permitir a evacuação segura e a preparação das comunidades. Esse sistema deveria ser integrado com plataformas de comunicação modernas para disseminar alertas de forma eficiente e acessível, alcançando a população por múltiplos canais.

A capacitação e o treinamento contínuo do pessoal da Defesa Civil também são aspectos cruciais. É necessário que esses profissionais estejam equipados não apenas com conhecimentos técnicos, mas também com equipamentos de última geração para resgate, comunicação e logística. Investimentos em veículos especiais, embarcações e aeronaves adaptadas para resgate, sistemas de comunicação avançados e equipamentos de proteção pessoal devem ser priorizados para garantir uma resposta rápida e eficaz durante as emergências.

A logística de ação em resposta a desastres também precisa ser meticulosamente planejada e executada. Isso inclui a definição de rotas de evacuação claras, a criação de centros de abrigo temporário bem equipados, seguros e o estabelecimento de estoques de recursos críticos, como alimentos, água potável, medicamentos e agasalhos, em pontos estratégicos para rápida distribuição. A colaboração entre o governo federal, estaduais, municipais e agências não governamentais é essencial para coordenar esses esforços e garantir que os recursos sejam utilizados de maneira otimizada e não permitir como ocorreu em diversos pontos onde houve conflitos devido à falta de organização governamental.

Por fim, uma estratégia eficaz de mitigação de desastres deve incluir um componente de revisão e melhoria contínua. Após cada desastre, é vital conduzir análises detalhadas do que funcionou e do que não funcionou na resposta à emergência. Aprender com cada evento e adaptar a estratégia de gestão de riscos é fundamental para aprimorar constantemente as capacidades do país em lidar com catástrofes naturais, tornando cada resposta subsequente mais eficiente e menos impactante para a população. Implementar essas medidas pode transformar profundamente a maneira como o Brasil enfrenta suas frequentes e variadas emergências naturais.

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, fundada há 200 anos e que não possui clero remunerado, é um bom exemplo ao Governo Brasileiro de ajuda humanitária. Com sede em quase todo o mundo, ela desenvolve um dos maiores programas de ajuda ao próximo – principalmente em situação de calamidade - do mundo.

Não é à toa que seus membros, voluntários, estão entre os primeiros a chegarem em locais onde ocorrem sinistros como esse no Rio Grande do Sul. Chega com auxílio de mão de obra e toneladas de alimentos, roupas, agasalhos, cobertores, água e outros materiais e equipamentos para o resgate e o acolhimento das vítimas.

A igreja mantém grandes depósitos de produtos e materiais para as mais variadas situações de catástrofe, para utilização em qualquer lugar do mundo. Ela freta aviões e carretas para conduzir esses materiais para os locais necessários de forma extremamente organizada. Seus membros recebem treinamentos, inclusive de primeiros socorros, para serem mais úteis durante as operações que realizam.

A situação do Rio Grande do Sul é crítica e as coisas ficarão muito mais delicadas depois que as águas baixarem e as famílias terem que voltar para reconstruir absolutamente tudo. Elas precisam muito da ajuda de todos e o poder público tem grande responsabilidade nessa reconstrução. Espera-se, no entanto, que no final, as cidades gaúchas arrasadas e as famílias desabrigadas não fiquem no esquecimento como o judiciário e o executivo federal fizeram com as famílias de Brumadinho.


*Wilson Aquino
Jornalista e Professor.

 

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