Apesar de constantemente escrever textos, poesias e músicas sobre os mais variados assuntos, escrever algo sobre você mesmo não é das tarefas mais fáceis. Contudo, como um atleta é movido por desafios, eu topei. Meu nome é Guilherme Costa, tenho 24 anos e sou amazonense. Começando do início, porque minha história tem vários inícios e recomeços, nasci uma pessoa “normal” (se é que isso existe) e me mudei para Brasília aos dois anos de idade. Foi lá que o curso da minha vida tomou rumos adversos.
Quando tinha 14 anos fui atropelado por um carro a 105 km/h, de acordo com a perícia policial, e tudo ficou denso e meio cinza a partir daí. Foram dois meses na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), depois 4 meses internado no Hospital Sarah Kubitschek, duas paradas cardíacas, 7 cirurgias, 7 bactérias hospitalares, 20 dias em coma. Perdi 30 quilos e fiquei tetraplégico, essa é a parte boa. Parte boa? Sim, porque estou vivo! Dentre tantas interrupções, entretantos, poréns e outras situações, eu estou vivo e bem vivo! Não quero que nossa conversa pareça algo clichê ou não fuja aos padrões, desculpem-me, mas eu gosto de coisas novas. Costumo dizer que algo novo sempre assusta no primeiro contato, mas depois passa a ser algo corriqueiro e natural.
Voltando à história, antes da lesão eu já era muito ligado a esportes e queria ser jogador de futebol. Entre todas as dificuldades que estava vivendo naquele momento, ainda tinha esse agravante. Doeu muito, me vi sem chão e, mesmo se tivesse chão de novo, não teria mais o movimento das pernas (ao menos eu pensava assim na época). Apesar de tudo, não fiquei revoltado, não tive raiva. Como disse anteriormente, eu havia sobrevivido a um acidente gravíssimo, mas não via perspectivas para o futuro.
A vida às vezes é muito dura. Ela cobrou de uma criança de 14 anos a maturidade de um adulto. Escolhi ser forte e ser fortaleza dentro de mim, vendo meus familiares e amigos ao meu lado. Eu não poderia ter o luxo de estar triste. Nesse momento comecei a perceber as coisas ao meu redor. A vida me parou para ensinar que ela era muito além do meu mundinho de até então. Tudo ao meu redor, apesar de ser um momento crítico e tenso, era amor e doçura. Tudo e todos cuidavam de mim com atenção e generosidade. Depois de um tempo recebendo essas doses diárias de amor, como que de forma natural, eu quis devolver amor para o mundo, apenas por gratidão. O mundo me impôs uma situação completamente adversa, mas ao mesmo tempo me proporcionou uma visão de que ele pode ser e é um gerador de amor.
Depois de ter passado o ápice da tormenta, fui para a Rede Sarah para reabilitação. Uma nova fase, dentre as tantas novas fases, se iniciara e, com ela, um choque: não voltaria mais a andar. O menino sonhador que queria ser um jogador de futebol estava à deriva num mar de incertezas. No hospital Sarah conheci um mundo novo, um mundo invisível e ao mesmo tempo estampado na nossa cara: somos milhões de deficientes Brasil afora e agora estamos começando a criar voz. Lá conheci diversas histórias, vi e convivi com diversos tipos de deficiência e todo tipo de gente. Ofereceram-me tênis de mesa como forma de reabilitação. Em um primeiro momento relutei muito e chorei. Queria minha vida de volta. Queria acordar daquele pesadelo. Até que me convenceram e resolvi tentar o tal do “ping-pong”.
Na primeira vez me falaram que eu levava jeito e me indicaram um cara em Brasília, Zé Ricardo (meu técnico até hoje) caso quisesse treinar um dia. Não quis, no primeiro momento, pois tudo ainda estava se encaixando na reconstrução de minha nova vida. Porém, exatamente um ano depois do acidente, no meu primeiro aniversário de lesão, pedi para minha mãe para fazer um esporte, senão enlouqueceria. Tinha o ímpeto de desportista, mas tinha principalmente uma vontade de ficar um pouco só, pois sempre havia muita gente ao meu redor. Por isso, aceitei tentar um esporte individual. Brinco que sempre fui meio “lobo solitário”.
Comecei a treinar tênis de mesa duas vezes por semana e fui jogar meu primeiro torneio nacional: Copa Brasil, quando fiquei em 3º lugar. As duas vezes na semana viraram três, que viraram todos os dias, que viraram três horas por dia, que viraram uma profissão, que virou uma paixão!
Com um ano e meio treinando, fui convocado pela primeira vez para a seleção brasileira juvenil e fui jogar na Colômbia. De lá voltei com dois ouros e uma prata. No mesmo ano fui convocado para seleção adulta pela primeira vez e de lá, graças a Deus, não saí mais. Já se passaram oito anos desde que comecei a jogar, já foram 15 países conhecidos, fora para onde fui mais de uma vez: Alemanha, Costa Rica e EUA, três vezes cada um, além de seis vezes na Eslovênia e por aí vai.
Rodei muito pelo Brasil também e vivi muito dentro do esporte paralímpico. Devo muito a ele, não só como atleta, mas principalmente como pessoa. Minha independência devo a esse “curso superior da vida” que o esporte me deu, o aperfeiçoamento do meu inglês e espanhol também e, por último, e talvez o mais importante, devo a conquista do “meu foco”, de saber exatamente o que preciso fazer para alcançar meu objetivo.
Agora, depois de oito anos, sou tetracampeão brasileiro, campeão parapan-americano, campeão parasul-americano (classe 2) e estou vivendo uma reformulação na minha vida porque me classifiquei para as Paralimpíadas do Rio 2016.
Nos últimos três anos estava treinando cerca de 5 a 7 horas, de segunda a sexta. Este ano, após me classificar, percebi que estava na verdade imerso numa zona de conforto e estava fazendo pouco. Estava fazendo aquilo que me mandavam e não indo atrás do meu sonho. Como na minha vida nunca consegui nada fácil, e, como já falei, sou movido por desafios, resolvi entrar nessa de cabeça.
Foto: Arquivo Pessoal
Estou trabalhando agora não só a técnica, mas o corpo, a mente e a estratégia para chegar nas Paralimpíadas no meu auge, preparado no tudo e no todo. Treinando, melhorando condicionamento, estudando a mim e a meus adversários, me aprimorando como atleta e ser humano. Percebi que sou muito maior do que imaginava e que estar numa vulnerabilidade física me fez crescer em vários outros aspectos do meu ser. Meu único objetivo é me preparar da melhor maneira possível para não chegar lá com um gostinho de “e se…” ou com aquele gosto amargo de que poderia ter feito mais.
Vou honrar cada Maria, cada João, cada Pereira, cada Silva ou cada Costa deste meu lindo país. Em um momento de tantas incertezas e crises, afirmo com fervor que, de nós atletas paralímpicos, só haverá motivos para se orgulharem. Eu me orgulho de carregar todos vocês na minha camisa, no meu peito.
Do seu querido servo, ó pátria amada!
*Guilherme Costa
Atleta da Seleção Brasileira Paralímpica de Tênis de Mesa
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