Campo Grande 00:00:00 Sexta-feira, 26 de Junho de 2026


Opinião Sábado, 20 de Fevereiro de 2016, 08:05 - A | A

Sábado, 20 de Fevereiro de 2016, 08h:05 - A | A

Opinião

Carne brasileira: do pé-duro ao contrafilé de primeira

Envie seu artigo para [email protected]

Por Carlos Viacava*
Artigo de responsabilidade do autor

Divulgação

Carlos Viacava

Carlos Viacava

Em recente publicação da ABIEC, encontramos trechos interessantes de autoria de Mário Palmério, registrados no romance “Vila dos Confins”, de 1956, onde o autor fala do fenômeno da multiplicação do gado no Triângulo Mineiro, resultado das inovações e cruzamentos daquela época: “Gado há bastante. Quase tudo ainda gado de antigamente e ordinaríssimo pé-duro. Progridem, todavia, algumas zonas, resultado da cruza do Zebu. O Gir, o Nelore e o Guzerá melhoram: pé-duro e curraleiro viram mestiços, mestiço vira meio-sangue, meio-sangue vai virando aos poucos um gadão de muita caixa e peso, Zebu inteirado, de cupim, barbela e gavião. É só não desanimar, que o cruzamento compensa”.

Disso tudo nasceu o PO (Puro de Origem), graças ao trabalho da Sociedade Rural do Triângulo Mineiro, criada em 1934, transformada em ABCZ, cujos associados criaram, em 1938, o Registro Genealógico das Raças Zebuínas.

Esse é a origem do gado PO zebuíno brasileiro, que fixou raças com o Gir e Gir Mocha, o Nelore (mocho ou de chifres), denominações de ambos constantes do Regulamento do Registro Genealógico das Raças Zebuínas, o Guzerá, o Sindi, o Indubrasil, o Tabapuã, o Cangaian e, mais recentemente, o Brahman, importado dos Estados Unidos e países latino-americanos.

Dentre essas raças que se tornaram importantes produtoras de leite e carne, tiveram grande expansão o Gir e o Nelore, graças, principalmente, à sua perfeita adaptação ao clima das regiões tropicais e semitropicais que caracterizam o grande planalto central brasileiro.

E o contrafilé de primeira?
As maiores quantidades de carne consumidas no mundo provêm das raças britânicas, Hereford e Aberdeen Angus, selecionadas há milênios para produção de alimentos, enquanto raças continentais e mesmo algumas zebuínas foram desenvolvidas principalmente para tração e muito utilizadas na produção agrícola e no transporte.

A dificuldade de adaptação dessas raças ao ambiente brasileiro, de um lado, e a grande facilidade de adaptação do Nelore, de outro lado, fizeram com que essa raça tivesse enorme crescimento entre nós e se transformasse num produto de exportação valioso em nossa balança comercial.

A grande façanha de nossos selecionadores foi estabelecer padrões raciais objetivos e persegui-los tenazmente durante anos a fio até que conseguíssemos a uniformidade racial que impera em nosso gado Nelore e em outras raças zebuínas. Dali em diante, entra o melhoramento genético, que deve ser empregado para a melhoria da qualidade e do poder competitivo da carne brasileira. Mais carne de boa qualidade a preços competitivos, gado mais eficiente para a lucratividade dos criadores e para a produção de carne de padrões internacionais.

É igualmente importante crescer com sustentabilidade ambiental, melhorando as pastagens degradadas, aumentando o sequestro de carbono, reduzindo a emissão de metano e assim contribuindo no combate à desertificação mundial e às mudanças climáticas.

Por essas razões, entendo que a ABCZ deve colocar entre suas prioridades a defesa da carne brasileira no Brasil e no exterior, independentemente da raça; o melhoramento genético, prestigiando em alto nível todos trabalhos aqui desenvolvidos; e a integração lavoura-pecuária-floresta.

 

 

*Carlos Viacava
Titular da marca CV, foi diretor da CACEX e presidente da ACNB (Associação dos Criadores de Nelore do Brasil)

 

• • • • •

 

A veracidade dos dados, opiniões e conteúdo deste artigo é de integral responsabilidade dos autores e não reflete, necessariamente, a opinião do Portal Capital News

 

Comente esta notícia


Reportagem Especial LEIA MAIS