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Opinião Sábado, 20 de Junho de 2026, 18:15 - A | A

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Opinião

A Copa na tela e o Enem na janela

Por Sérgio Gouveia*

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É Copa, né? Um bilhão de pessoas estão vendo jogos com os melhores jogadores do planeta. Ao mesmo tempo, mais de 5 milhões de jovens brasileiros, para além dos apelos e emoções desse esporte encantador, estão vendo o Enem batendo em suas janelas. O que parece ser uma escolha - estudar ou ver alguns jogos - pode não ser. Basta entender melhor o que e como o Enem cobrar sobre o evento.

Um dos erros mais comuns de quem estuda para o exame é acreditar que a prova cobra conteúdos tradicionalmente escolares ou apenas entendimento de textos. Na verdade, o que acontece é que o Enem frequentemente utiliza acontecimentos do cotidiano para avaliar competências e habilidades publicadas pelo MEC e pouco trabalhadas nas escolas.

A Copa do Mundo oferece excelentes exemplos disso. O fato de o futebol se adaptar a diversos contextos pode ser explorado no exame. Uma reportagem sobre a forma como jogadores de diferentes países se comunicam dentro de campo pode ser usada em uma questão que explore o corpo como instrumento de comunicação e interação social: mesmo sem compartilhar o mesmo idioma, atletas conseguem coordenar movimentos, interpretar gestos e compreender intenções por meio da linguagem corporal.

Uma matéria sobre a evolução do futebol ao longo das décadas poderia servir de base para uma questão sobre adaptação de práticas corporais, processo cobrado pela habilidade 11. Afinal, o esporte mudou profundamente: os métodos de treinamento se transformaram, os equipamentos evoluíram, as estratégias foram aperfeiçoadas e novas tecnologias passaram a influenciar o jogo. O futebol de hoje não é exatamente o mesmo praticado há cinquenta anos.

Até mesmo as comemorações podem se tornar objeto de análise. Quando um grupo de jogadores celebra coletivamente um gol, não está apenas expressando alegria. Está construindo uma mensagem, reforçando laços de pertencimento e compartilhando valores com colegas, torcedores e espectadores. O corpo, nesse contexto, funciona como uma forma de comunicação.

Outra forma de o Enem cobrar a Copa: ter saúde é mais do que fazer exercícios físicos; é mais, também, do que fazer dieta; é ainda mais do que ter lazer. É ter tudo isso junto e algo a mais - é estar em um contexto que contribui para querer e poder fazer o que é necessário para manter o corpo e a mente em boas condições. Isso está ligado à habilidade 10 do Enem.

Os exemplos de relação Copa e Enem podem ir além. Quem acompanha o evento viu a proibição do uniforme do Haiti com referência a uma revolução liderada por negros. Aí entra a questão: os esportes não têm nada a ver com manifestações políticas? Absolutamente! A competência 9 do Enem cobra exatamente isso: as relações entre esportes e política - especificamente com os grupos chamados minoritários. Já se cobrou, por exemplo, a diferença de remuneração entre duas referências mundiais no futebol: Marta e Neymar.

É justamente esse tipo de olhar que o Enem procura desenvolver. Mais do que cobrar conteúdos escolares tradicionais, o exame busca avaliar a capacidade de interpretar fenômenos culturais, sociais e comunicativos presentes no cotidiano.

Neste momento de Copa, claro, todos nós paramos para ver os jogos, torcer e resenhar. Contudo, aos estudantes que estão nessa jornada, nada de esquecer que nem no Enem nem na vida real os jogos são apenas jogos. Eles são, nas palavras do MEC, “linguagem corporal relevante para a própria vida, integradora social e formadora de identidade”.


*Sérgio Gouveia
Sócio-fundador da escola de Entendimento de Texto, Redação, Literatura e Gramática Ágora - @agora.redacao -, é professor de Linguagens há mais de 20 anos; graduado na USP, mestre na Unesp e dedica-se ao ensino das competências e habilidades avaliadas pelo ENEM tanto na prova de Redação quanto na de Linguagens

 

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