Inicialmente eram 22 barracos, mas agora são 113. A formação favelística Portelinha do Segredo, ao lado do bairro Morada Verde, na saída para Cuiabá, em Campo Grande, infla de maneira desordenada principalmente devido a oportunistas que querem ser cadastrados pela Empresa Municipal de Habitação (Emha) como se fossem moradores da favela.
Fora a fragilidade dos barracos, as crianças ainda correm sérios riscos, podendo pegar doenças ou serem picadas por animais peçonhentos. A comunidade espera por providências da prefeitura e dizem que as moradias prometidas nunca foram entregues de fato.
Conforme informações passadas por uma moradora ao Capital News, após o cadastro realizado este ano pela prefeitura, o número de pessoas inflou no local. A reportagem esteve no e constatou a situação lastimável.
De acordo com a moradora Sônia Regina Lucas, 48, do lar, que há três anos reside no local, quando a prefeitura fez o primeiro cadastro ela estava há um ano ali, mas o mesmo não foi aprovado.
Segundo a mesma, na época da política os ‘interessados’ visitam mais o local.
“Da última vez que vieram, tentaram nos despejar, dizendo que iam levar a gente para uns barracos de lona na Cidade de Deus, mas ninguém quis. Falaram que, com o tempo, iam dar material para gente construir nossas casas. Mas se aqui, que é área de risco, não fizeram nada, imagine lá!”, reclamou.
A moradora, revoltada com a situação, conta que hoje seu cadastro é o de número 85. “Mas de que adianta? Todo ano eles fazem um cadastro, mas, na verdade, nunca dão uma solução. As casas do Cerejeira, que eles prometeram pra gente, nada!”, completou.

Sonia reclama que muita gente está ali e tem dinheiro, enquanto elas continuam sem casa
Foto: Deurico/Capital News
A nora, que mora num barraco próximo, Françuase de Souza Leal, 25, do lar, está na Portelinha do Segredo há cerca de dois anos e oito meses.
Ela confirma o que a sogra disse: “Todo ano eles vêm e faz um cadastro. E tem muitas pessoas que estão aqui mas têm condições. Só que elas se instalam para conseguir casa da EMHA, e acabam prejudicando a gente que realmente precisa”, lamenta.
A sogra frisou que “a prefeitura fala que é para os moradores da Portelinha não deixarem entrar mais gente para morar no local. Mas como vamos fazer isso? Não tem nem como se envolver, nem compensa se arriscar", observou.
"Tem gente aqui que vende o almoço para comprar a janta, vêm por carência mesmo. Outros, têm condições, dinheiro e até mesmo carro bom. Só que tem também os drogados, bêbados. Como que a gente vai discutir com estas pessoas, falar para elas não entrarem? Pode até dar uma morte. Porque a prefeitura não vem aqui então, para eles mesmos proibirem a entrada de mais gente? Até casa para o pessoal das Moreninhas eles deram. E nós, continuamos assim?”, questionou.
Espera dura dois anos
A outra nora, Jaqueline Mendes de Souza, 24, do lar, conta que era para eles saírem dali há cerca de dois anos, com a entrega do Cerejeiras.
Uma vizinha, que não quis se identificar, falou que tem gente que tinha casa no Talismã, no Noroeste, ou em outros bairros, que venderam e foram para a formação favelística.
Ela conta, com a confirmação das outras três, que ali mora gente com carro do ano – até mesmo um Honda Civic; com TV a cabo; proprietários de chácaras, além de outros bens. A vizinha conta ainda que a prefeitura teria alegado em programa de TV local que já havia entregado casas para eles.
Jaqueline ressalta que as pessoas vendem suas casas e tentam conseguir outra, morando na favela. “Tem gente que é só amasiado, vem para cá, e fala que é solteiro, para conseguir casa”. Ela diz que eles as autoridades só vão lá uma vez por ano, ou, principalmente, na época de campanha eleitoral.
“Temos que sair daqui, não dá mais para agüentar, porque daqui a pouco vêm as chuvas e vai alagar tudo. De que adianta a gente investir em telha, madeirite, se não sabe nem se vai ficar aqui? Fora que tem um monte de cobra, aranha, barata e outros bichos que podem até matar, lá mais para baixo. Eu, por exemplo, tenho um filho de apenas um aninho, imagine o perigo que a gente passa aqui”, relatou.

Jaqueline e Françuase aguardam solução urgente, pois não agüentam mais
Foto: Deurico/Capital News
Chuva invade barracos
A chuva, conforme Jaqueline, invade os barracos. “Já estamos tão acostumados com o sofrimento que não dá mais para desesperar. Quando eu estava grávida de oito meses minha casa ficou alagada, fui socorrida pelos vizinhos mesmo”.
A líder do bairro, Mariluci Oliveira Silva, 33, conta que a EMHA já fez três cadastros. Hoje, no local, estão instaladas 113 famílias. “Primeiro falaram que a gente ia para o Santa Emília. Mentira, porque as casas já saíram e já foram entregues. Depois, falaram do PAC II. Ficam fazendo o pessoal de bobo aqui. Se eles quisessem mesmo tirar a gente desta situação, já tinham feito. O problema se estende já tem seis anos!”.
Mariluci conta que recentemente uma criança de 4 anos foi atacada por uma cobra, visto que ali no local existem muitos animais peçonhentos.
“Sem contar que quando chove, é uma lamaceira. Fora o esgoto a céu aberto. A água e energia é tudo no gato mesmo. Quando está na época de eleição, é 1001 maravilhas. Na época do lançamento das casas do Cerejeiras, iam contemplar as 22 famílias que haviam aqui inicialmente, mas continuamos na favela", lembra.

"A água e energia são tudo gato", revela Mariluci
Foto: Deurico/Capital News
"E foi chegando cada vez mais gente, por causa do cadastramento. Como vamos barrar estas pessoas, se nem o prefeito consegue fazer isso? As pessoas vendem as casas delas e vêm pra cá, é fato, para tentar conseguir outra. E a gente, que nunca teve, continua na mesma. Para ter uma idéia, meu primeiro cadastro era de número 10, o segundo 27 e agora estou no 49”, completou.
A última notícia que tiveram, conforme a líder da Portelinha do Segredo, é que iam sair casas na Vila Nascente até dezembro de 2011.
“Mas já estamos finalizando o ano e só tem mato lá, não construíram nada. O ano já se foi, e nós continuamos aqui ainda. Fora a discriminação que os moradores sofrem. As crianças, na escola, são chamadas de favelados. Para arrumar um serviço, quando a gente fala que mora na favela, daí já falam que depois ligam ou que não dá mesmo. Dão um monte de desculpas”.
Violência
Quanto à violência no local, Mariluci conta que uma menina foi baleada no começo do ano, e que ocorrem assaltos também, feitos por pessoas que moram no próprio local, foragidos, inclusive.
“Fora que, se tiver alguém morrendo, o Samu não entra aqui. Não sei exatamente porquê, mas a fiação é muito baixa e tem lama por toda rua. E quando chamamos a polícia, demora um tempão para chegarem”, relatou.
“Estamos aguardando a continuação da avenida, disseram que é para o começo do ano. Mas eu não acredito, todo ano eles fazem promessa”.
Mariluci conta que de cinco anos que está ali, recentemente conseguiu um carro “melhorzinho”,o qual usa principalmente para socorrer os moradores que passam mal.
“Se cai gente desmaiada, se passa mal, a gente tem que levar. Isso porque tem gente que mora aqui e tem uma Hilux, por exemplo, mas não deixa durante o dia, eles escondem pra ninguém ver", relata.
"Tem Honda Civic, nossa, tem tudo quanto é tipo de carro bom. É maldade deles, têm dinheiro e vêm aqui só pra conseguir casa. Tem uns que aparecem só final de semana”, diz a moradora e líder.

A representante do bairro, Mariluci, lamenta a falta de posição das autoridades
Foto: Deurico/Capital News
Quem precisa, chegou primeiro
Das 113 famílias que hoje residem no local, a líder conta que realmente precisam de uma casa aproximadamente 80.
“Os que precisam mesmo foram os que chegaram primeiro. Dos mais novos, a maioria vendeu a casa que tinha em outros bairros, como o Gabura e Arnaldino, até mesmo aqui do lado, no Cerejeiras".
"Queremos e necessitamos de uma solução urgente. Mais um ano de promessas se vai, e nós aqui ficamos”, cobrou.
A líder pede ajuda com roupas e calçados para os moradores da região. O contato é: 9272-8025 ou 9234-2028.

Embora a situação seja caótica, a assessoria da prefeitura acredita tratar-se de área invadida
Foto: Deurico/Capital News
Prefeitura
Conforme Assessoria de Comunicação da Prefeitura, todas as pessoas que fazem o cadastro na Emha ficam na fila aguardando, e, quando sai a casa, a família entra no programa habitacional. As famílias são encaixadas no programa de acordo com as casas disponíveis, nos bairros que a prefeitura construir moradias.
A informação sobre as casas citadas pela líder, que seriam construídas na Vila Nascente, não procede, de acordo com a assessoria, que ressalta também que as famílias que estavam em situação de risco na beira do córrego já foram todas atendidas e contempladas com moradias, e, sendo assim, os barracos podem ter sido montados depois.
No caso de invasão de áreas públicas para construção de moradia, a assessoria informa que o morador pode ser despejado, e, ainda não ser contemplado pelo programa habitacional. E quem é sorteado com a casa e vende a mesma, não será beneficiado em lugar algum do país mais, já que o inscrito consta num cadastro nacional.
Para finalizar, a assessoria frisa que a instrução da prefeitura é que as pessoas que não possuem moradia se dirijam até a Emha, realizem o cadastro e aguardem o sorteio.
• • • • •
• Junte-se à comunidade Capital News!
Acompanhe também nas redes sociais e receba as principais notícias do MS onde estiver.
• • • • •
• Participe do jornalismo cidadão do Capital News!
Pelo Reportar News, você pode enviar sugestões, fotos, vídeos e reclamações que ajudem a melhorar nossa cidade e nosso estado.
