Durante um depoimento à CPI do Cimi, o delegado da Polícia Federal, Alcídio de Souza Araújo, e o índio Terena Dionédison Cândido, da Aldeia Bananal em Aquidauana, divergiram sobre a atuação do Conselho Indigenista Missionário. O depoimento sobre as invasões das terras particulares em Mato Grosso do Sul aconteceu na terça-feira (27).
O delegado afirma que o órgão condena e financia as invasões. Já o indígena alega que membros do Cimi participaram das Grandes Assembleias do Povo Terena e não colaboram com o processo.
Dionedison, que diz ser artesão e assessor parlamentar do deputado federal Zeca do PT, foi o primeiro a ser ouvido. Ele participou do processo violento de reintegração de posse ocorrido em maio de 2013 na fazenda Buriti.
De acordo com o indígena, o Cimi, assim como outros órgãos, é convidado a participar dos processos de reintegração para evitar transtornos por parte da Polícia Federal. Ele nega que o Conselho Indigenista Missionário participe das decisões tomadas pelos indígenas de invadir propriedades ou financie essas invasões.
Em vários momentos Dionédison recorreu a um caderno de anotações para respaldar as declarações. Em um primeiro momento, afirmou ter participado dois dias da reunião, entre 8 e 11 de maio. Depois, alegou que só chegou na Buriti dia 18 de e que não esteve na Assembleia.
O delegado Alcídio Araújo, que liderou o processo de reintegração de posse, foi categórico ao garantir a interferência do Cimi no processo de invasão de terras tituladas em Mato Grosso do Sul. “Digo que sim. Há uma logística muito pesada para a ocupação, e para conseguir essas invasões precisa-se de dinheiro, ônibus. Tudo isso vem do Cimi”, declarou. Antes do confronto na Buriti, os indígenas assinaram um documento garantindo a saída pacífica do local. Para ele, o Cimi instigou os indígenas a resistir e partir para a guerra com a polícia.
De acordo com o delegado, o vereador Cledinaldo Cotócio afirmou, na presença de 19 policiais federais e do superintendente da PF, que a resistência dos indígenas em não deixar a fazenda era culpa do Cimi.
Alcídio Araújo contou que, ao chegar à propriedade, se deparou com o jornalista Ruy Sposati, do Cimi, e decidiu apreender a câmera fotográfica e o computador para averiguar as informações que havia recebido anteriormente. O coordenador regional do Cimi, Flávio Machado, também estava no local. No equipamento, de acordo com o depoimento do delegado, havia um Manual dos Anarquistas, com 360 páginas, que ensinava, entre outras coisas, a fazer bombas caseiras. Esses e outros detalhes constam do inquérito 215/2013.
De acordo com o delegado, os índios estavam com armas artesanais, de calibre 22.
Alcídio confirmou ainda que os índios se movimentavam de forma organizada durante a tentativa de reintegração de posse, com técnicas de guerrilha. Os indígenas, segundo o delegado, empunhavam armas artesanais, de calibre 22.
Depois das oitavas o relator da CPI, deputado Paulo Corrêa, afirmou acreditar que Cimi apoia invasões e ajuda financeiramente na organização dos índios. “Hoje foram seis horas de reunião da CPI e durante essas cinco oitivas nós colhemos informações importantíssimas. Por exemplo: de acordo com o delegado Dr. Alcídio, durante a invasão da Fazenda Buriti houve técnicas de guerrilhas. Os índios foram treinados para fazer aquilo e o dinheiro utilizado para que pudessem se organizar veio de outro lugar. O delegado também nos explicou que durante o ato, depois de feita a negociação para que os índios pudessem desocupar a área, eles voltaram atrás e que durante esse processo de negociação o CIMI estava por trás o tempo todo, orientando os índios a não desocuparem a área. São declarações importantes que comprovam a participação do CIMI em todo esse processo”, disse Paulo Corrêa.
De acordo com a presidente da CPI, deputado Mara Caseiro, a Comissão quer apenas contribuir para resolver os conflitos e garantir vida digna aos índios. “Essa CPI não é contra indígena, não é contra igreja católica, não é a favor de produtores, mas é em busca da verdade. Queremos realmente saber o que vem acontecendo no campo que hoje tirou a paz. E que a gente encontre maneiras de trazer condições dignas para nossas comunidades indígenas”, explicou.
No final Paulo Corrêa solicitou ao delegado da PF cópia do relatório sobre as ações de reintegração comandadas no Mato Grosso do Sul. A CPI também vai requerer a quebra do sigilo bancário de um indígena que supostamente recebeu dinheiro do CIMI e cópia do inquérito 2015/2013 que investiga situação de incitação e desobediência e que têm como réus componentes do CIMI.
Os membros das CPI também aprovaram a convocação de outras pessoas para prestar esclarecimentos. Nomes para aprovação, desembargador aposentado do estado de Rorâima Alcir Gursen de Miranda, do Vice-governador de Rorâima Paulo César Justo Quartiero, das produtoras rurais Mônica Alves Corrêa e Nanci Aparecida da Silva, proprietárias da fazenda esperança em Aquidauana, do presidente Nacional do CIMI e Bispo da Arquediocese de Rorâima Dom Roque Paloschi.
Com informações da assessoria de comunicação.
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