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Reportagem Especial Sexta-feira, 29 de Julho de 2011, 14:28 - A | A

Sexta-feira, 29 de Julho de 2011, 14h:28 - A | A

Moradora de rua reside há dois anos na calçada da Santa Casa

Wendell Reis e Alessandra Carvalho - Capital News (www.capitalnews.com.br)

Há muito tempo as calçadas da Santa Casa de Campo Grande, no centro da Capital, se tornaram abrigo de moradores de rua. O problema, antigo, persiste por conta, muitas vezes, da vontade das pessoas que, segundo a prefeitura, vivem no local por vontade própria. Em meio a lutas com vícios e falta de estrutura para mudar o destino, as pessoas acabam por fixar residências no local, que também funciona como fonte de renda.

Alessandra Serafim, 28 anos, mora há dois anos em uma cabana com oito cachorros, um parente, 58 anos, e dois amigos na rua 14 de Julho, próximo a Santa Casa de Campo Grande. A moradora de rua conta que tem o sonho de conquistar a casa própria para sair da rua, mas ainda está aguardando uma oportunidade. “Eu vou sair daqui para morar na minha casa própria. Escolhi este lugar para ficar porque é um local calmo. As pessoas que passam aqui me respeitam. Recebo moedinhas das pessoas que me veem sempre aqui”, revela.

A jovem montou um fogão improvisado de tijolo e carvão e estava cozinhando arroz com feijão e fígado acebolado. Ela trabalha e mora na calçada. “Aqui é meu pedaço de terra. Faço a minha comida e durmo aqui. Levanto todos os dias com o barulho das pessoas passando na calçada e começo a trabalhar. Cuido dos carros que ficam estacionados aqui nas calçadas”, comenta.

A Polícia Militar já esteve no local por diversas vezes, mas não resolveu o problema. “Até a polícia não liga mais para a gente. A última vez que ela veio aqui eu disse que a gente está trabalhando e não está roubando ninguém. Então, ficamos aqui”, conta.

A moradora conta que durante a noite os oito cachorros protegem ela das pessoas que tentam chegar próximo a cabana. Assim, sente-se segura. “Durmo aqui nessa cabana com todos os meus cachorros. Não tenho medo de nada. Quando chove muito fecho a cabana e continuo lá dentro. O meu pai e os meus amigos ficam aqui fora ou vão para a rua andar na noite”.

Esperançosa, Alessandra usa uma palavra bíblica para explicar a sua situação. “Deus da o frio conforme o cobertor... É tão engraçado que quando chove ou esfria muito, logo o tempo melhora e seca tudo as minhas coisas. A minha cabana é de plástico, mas não entra água e no frio pego as minhas cobertas e fico quieta”, comenta.

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Ela cozinha em um fogão improvisado para se alimentar
Foto: Deurico/Capital News

Cetremi

Alessandra revela que já foi cinco vezes para o Centro de Triagem e Encaminhamento do Migrante (Cetremi) da Prefeitura de Campo Grade, mas não gosta do lugar porque viu outros amigos sendo mal tratados pelos guardas. “Teve um dia que chegou o veículo kombi do Cetremi e pegou todas as minhas coisas e me largaram no pátio com os meus bichos. Lá eu vi coisas que não gosto nem de comentar. Lá o bicho chora e a mãe não vê”, declarou.

Governo e prefeitura

“O governo de Mato Grosso do sul não liga para a gente. Eu queria mesmo é falar com a primeira dama e assistente social Maria Antonieta, que fica lá na Prefeitura de Campo Grande. Se eu for lá ela não me atende. Esses dias atrás eu fiquei sabendo que ela esteve aqui perto. Mas não a vi ainda. Queria pedir um apoio para ver o que ela pode fazer pela gente. Será que ela consegue uma casa para mim?”, questionou.

Vício

Sem medo, a jovem admite que tem vícios, mas tenta justificar a fraqueza. “Pego as minhas moedas e compro cigarro e pinga. Não tem como falar que não uso nada. Tenho uma vida difícil e só a pinga para esquecer um pouco dos problemas”. Alessandra é de São Paulo e veio para o Mato Grosso do Sul por meio de ônibus, carona e a pé. Entretanto, veio para o Estado por conta de briga familiar. “Agora não consigo voltar para o meu povo. Lá mora minha mãe e meu pai. Eu nunca tive filhos”, concluiu.

A assessoria de imprensa da prefeitura alega que as pessoas moram no local por opção, uma vez que, a prefeitura oferece permuta para as pessoas conseguirem passagem para retornar a sua cidade natal. Os interessados fazem algum tipo de trabalho para conseguirem a passagem. Além disso, a prefeitura informa que não pode oferecer residências se as pessoas não fizerem cadastro na Agência Municipal de Habitação (EMHA) ou mesmo emprego, pois as pessoas precisam se qualificar para ocupar as vagas.

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Local onde ela dorme, uma pequena barraca para rebater o vento frio das madrugadas de Campo Grande.
Foto: Deurico/Capital News

 

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