As reservas petrolíferas de Alberta, no Canadá, são seis vezes maiores que as da Arábia Saudita, mas a sua prospecção e o processo de retirada do óleo impregnado em areia são caros, demandam enormes quantidades de água e gás natural. Nada disso, no entanto, impede a atividade frenética que se desenvolve incessantemente, até sob o rigoroso inverno da região (as temperaturas chegam a -40º C), cujos índios usavam o óleo para impermeabilizar suas embarcações.
O custo de extração do hidrocarboneto ali é estimado em cerca de US$ 27 por barril, e só a Shell, pretende processar 500 mil barris diários, de um total de 1.200, incessantemente, por até 50 anos. Ainda que a tecnologia atual só permita à industria retirar dez por cento do petróleo das areias de Atabasca, a região produz atualmente mais que o Kuwait. O trabalho, extremamente árduo e sujo, é feito por hordas de imigrantes de várias partes do mundo.
Os moradores da cidade de Fort Mac Murray já pagam o preço da maldição do petróleo, com altos índices de alcoolismo, prostituição, depressão, tráfico de drogas e ouros males. A chuva ácida resultante das atividades vai destruindo a vegetação e incontáveis árvores. Grandes lagos artificiais com água altamente envenenada por hidrocarbonetos carcinogênicos e metais pesados completam o cenário pré-apocalíptico.
Não obstante o perigo ambiental esta modalidade de exploração de petróleo esconde também um nada desprezível risco econômico. É o que revela reportagem de 17 de setembro do jornal inglês The Guardian. Segundo o diário, a indústria petrolífera pode estar à beira de uma crise equivalente à das hipotecas, o chamado sub-prime, que assola os Estados Unidos e já contamina as economias européia e japonesa.
As empresas Shell e British Petroleum (BP) foram alertadas por investidores que seu envolvimento em processos de produção de hidrocarbonetos como o que desenvolvem no Canadá pode desencadear uma crise tão grave quanto a do mercado imobiliário americano.
A reportagem se baseia em um relatório de autoria do Fórum de Investimentos Sociais do Reino Unido em co-autoria com o Greenpeace, intitulado “BP e Shell, crescentes riscos financeiros dos investimentos em areias betuminosas”.
À medida que muitas empresas estrangeiras são expulsas da Venezuela e da Rússia, aumenta o olho grande sobre as reservas canadenses, inclusive sob o argumento de o país ser politicamente estável, próximo dos EUA e confiável.
A crise bancária demonstrou a facilidade que os operadores do mercado financeiro têm de cometer erros de avaliação dos riscos que costumam rondar a economia mundial. A Shell e a BP são duas das empresas mais bem conceituadas no mercado acionário. A Shell, no entanto, tem trinta por cento de suas reservas petrolíferas em areias betuminosas, o que representa um risco nada desprezível quando os custos desta modalidade de extração crescem e os preços do petróleo caem abaixo de noventa dólares – um alerta para o Brasil, que comemora efusiva e exageradamente as descobertas do pré-sal.
Estima-se que as areias canadenses contenham 180 bilhões de barris de óleo, e os ambientalistas alertam para o fato de a conversão de betume em óleo cru sintético contribuir entre três e cinco vezes mais para o efeito estufa do que as formas tradicionais de prospecção de petróleo. Para se ter uma idéia, o processo de conversão de um barril de areia betuminosa em petróleo sintético para uso em refinarias comuns consome 14 m³ de gás natural e grandes quantidades de água.
A Shell e outras empresas do ramo alegam poder reduzir substancialmente as emissões de carbono resultantes da atividade através de técnicas de seqüestro de carbono – uma tecnologia muito cara.
A Rede para a Conservação da Natureza (WWF) observa que estas formas de prospecção de hidrocarbonetos poderão levar o mundo a um processo irreversível de mudanças climáticas.
Se a economia mundial recuperar-se rapidamente da crise atual a demanda crescente por energia redundará na continuidade e ampliação de novas e perigosas formas de obtenção de hidrocarbonetos, presentes em grande quantidade também sob o leito submarino do Ártico.
Mas este velho mundo sempre colocou os interesses político-econômicos à frente de muitas questões cruciais para a humanidade, e não há sinais de mudanças no horizonte.
Informativo: Leitor Luiz Leitão da Cunha, mandou para Capital News seu artigo. [email protected]
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