Novos distúrbios foram registrados nesta sexta-feira no Paquistão. No noroeste do país um ataque a bomba matou quatro pessoas, entre elas um político do partido que apóia o ditador Pervez Musharraf, informou a polícia. Entre ontem e hoje, ao menos 23 pessoas morreram.
Na Província de Peshawar, também no noroeste, simpatizantes da ex-premier incendiaram uma sede do partido de Musharraf, o PML-Q (Liga Muçulmana do Paquistão-Quaid) e também apedrejaram um cinema.
A polícia manteve uma atitude discreta depois de uma noite de violência em todo o país, mas as forças paramilitares que atuam na Província de Karachi, receberam ordem de abrir fogo para conter os distúrbios caso fosse necessário, informou o comandante Athar Ali.
Em Rawalpindi, cidade vizinha de Islamabad, a polícia utilizou bombas de gás lacrimogêneo para dispersar os grupos de manifestantes que se dirigiam para a sede do partido do ex-ministro Sheikh Rashid, aliado de Musharraf.
Os manifestantes destruíram e incendiaram os cartazes com a imagem de Rashid.
A situação no resto do país permanecia calma, mas, em todas as cidades, se respira uma atmosfera de extrema tensão.
O corpo de Benazir foi recebido em aclamação por milhares de simpatizantes. O caixão branco da ex-premiê foi envolto em uma bandeira negra, verde e vermelha, que simboliza seu partido, o PPP (Partido do Povo do Paquistão). Na passagem do caixão, as pessoas gritavam, choravam e batiam no peito em desespero.
A líder paquistanesa foi assassinada ontem logo após particiopar de um comício --no qual a ex-premiê falou sobre ameaças à sua vida. Bhutto pôs o corpo para fora de seu carro blindado, pelo teto-solar, para acenar aos simpatizantes. Um terrorista primeiro atirou contra ela e depois detonou os explosivos que carregava consigo, segundo a polícia e testemunhas. A explosão deixou ao menos outras 20 pessoas mortas e mais de cem feridas.
Após o atentado, Bhutto chegou a ser encaminhada para o hospital, mas ela já estava em estado de morte cerebral, segundo um dos médicos que a atenderam. Foram constatados dois ferimentos de bala, um no pescoço e outro na cabeça, com fraturas.
Durante o comício, e ex-premiê falava justamente sobre os riscos que enfrentava. "Coloco minha vida em risco pois sinto que o país está em perigo", disse Bhutto. "As pessoas estão preocupadas. Iremos tirar o país dessa crise."
Bhutto estava há 71 dias no país. Ela encontrava-se em plena campanha para as eleições parlamentares marcadas para o dia 8 janeiro. De acordo com as pesquisas de opinião recentes, a ex-premiê era a candidata favorita no pleito.
Bhutto governou o país duas vezes, entre 1988 e 1990, e entre 1993 e 1996. Seus dois mandatos foram interrompidos por golpes militares, após a ex-premiê sofrer acusações de corrupção e abuso de poder.
Antes de regressar ao Paquistão, em outubro, Bhutto passou oito anos no exílio, em Londres. O atentado desta quinta-feira foi o segundo contra Bhutto em três meses. No dia 19 de outubro, um homem-bomba matou cerca de 150 pessoas em Karachi, no dia em que Bhutto voltou ao país.
Eleições mantidas
Apesar do assassinato de Bhutto, o governo paquistanês decidiu, nesta sexta-feira, manter o calendário das eleições parlamentares.
A decisão foi tomada em uma reunião urgente presidida pelo primeiro-ministro interino Mohammamian Soomro.
"O governo usará todos os meios para acabar com essa conspiração contra o Paquistão", disse Soomro em discurso à nação. O primeiro-ministro pediu aos paquistaneses que mantenham a calma. Para ele, a instabilidade poderia dificultar a investigação e beneficiar os responsáveis pelo ataque.
A declaração é uma tentativa de evitar o aprofundamento de uma crise política no país, detentor de armas nucleares.
Boicote
O também ex-premiê e líder oposicionista Nawaz Sharif afirmou, no entanto, que seu partido irá boicotar as eleições.
Segundo ele, se o governo insistir em manter o calendário eleitoral, o "país vai se destroçar". "Se as eleições forem mantidas, entraremos em um caminho de autodestruição", afirmou.
Sharif reiterou que exige a renúncia imediata do ditador paquistanês Pervez Musharraf. Para ele, o assassinato de Bhutto é "prova" de que as eleições não serão conduzidas de forma transparente.
"Musharraf tem que renunciar. Esta é a demanda número um da nação hoje. E eu posso ver que a população quer que isto aconteça o mais rápido possível, sem nenhum adiamento", declarou o ex-premiê.
Com France Presse
Capital News
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