A usina pertence ao empresário João Pessoa de Queiroz Bisneto, dono do grupo J. Pessoa que, entre outra s empresas, controla a Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool (Agrisul). João Pessoa figura entre os signatários de um manifesto divulgado no ano passado em apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A usina permanecerá interditada, disse ontem o procurador do Trabalho e vice-coordenador nacional de combate ao trabalho escravo, Jonas Ratier Moreno. Só ontem, uma semana após o flagrante, o Ministério do Trabalho divulgou o caso. À reportagem da Folha Moreno disse: "Já vi muitas fotos de presídios que tinham condições melhores do que as encontradas lá." Ele esteve no local e classificou a situação dos trabalhadores no local de "extremamente degradante".
Entre as irregularidades encontradas a fiscalização constatou que os alojamentos ocupados pelos índios estavam superlotados, sem armários ou locais para guarda de roupas e objetos de uso pessoal, em desacordo com normas de segurança e saúde do trabalhador. Nos alojamentos --onde índios estavam sendo alocados desde o início da safra (março/abril)-- foram encontrados lixo espalhado pelo chão, restos de comida por todo o local e esgoto a céu aberto.
A fiscalização apontou atraso no pagamento de salários e ausência de recolhimento do FGTS pela empresa. Entre o grupo encontrado em situação degradante há índios das etnias guarani, caiuá e terena. Na área industrial, o grupo de fiscalização identificou excesso de vazamento nas tubulações, alto nível de ruído e presença de bagaços de cana ao ar livre, o que pode provocar doenças respiratórias.
Em um ônibus utilizado para o transporte dos índios, foram localizados sacos de carvão forrando as poltronas, que não tinham encosto. Além disso, o veículo não tinha cintos de segurança, lanternas estavam quebradas e a porta amarrada com tiras de câmara de ar. A partir da próxima semana deve ser dado início ao pagamento das indenizações dos trabalhadores e a empresa será autuada, informou o Ministério do Trabalho. A Funai (Fundação Nacional do Índio), por intermédio de sua assessoria de imprensa, disse que parte dos índios já havia retornado a suas aldeias de origem.
A Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool/Agrisul informou à reportagem da Folha, via assessoria de imprensa, que a empresa não havia sido comunicada oficialmente sobre a interdição da unidade em Brasilândia (MS), mas que mesmo assim resolveu interromper as atividades para "fazer as correções necessárias" apontadas pela fiscalização do grupo móvel.
Segundo a empresa, "estão sendo tomadas medidas de correção, inclusive nos alojamentos", e a operação da usina deve ser retomada ainda nesta semana. Parte integrante do grupo J.Pessoa, a Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool possui sete unidades produtivas nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Sergipe.
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