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Roteiro da escravidão em Cuba atrai turistas negros do Brasil e dos EUA

Por Raphael Granucci

Da coluna Entrelinhas da Notícia
Artigo de responsabilidade do autor

Depois de pacotes turísticos de afro-estadunidenses em direção à África, Cuba também se torna destino de negros em busca de suas raízes africanas

Istock Photos

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Quando Estados Unidos e Cuba anunciaram pela primeira vez os planos de restaurar as relações diplomáticas, no final de 2014, a empresária estadunidense Kasara Davidson chamou sua sócia para dizer que havia chegado a hora de usar os 20 anos de experiência na ilha para começar um negócio turístico focado na ancestralidade negra.

"Era uma oportunidade para nós aprendermos mais sobre Cuba e uma oportunidade de compartilhar o que sabíamos sobre o país com os outros", disse ela ao jornal Miami Herald. Sua empresa, a Diaspora ES, cria programas educacionais, profissionais e culturais para indivíduos, grupos e organizações em cidades ao redor do mundo.

Desde sua fundação, em 2014, o foco principal da empresa está em Cuba - levando vários grupos dos EUA para a ilha por meio das 12 categorias de pessoas que, quando liberadas, tornaram mais fácil para o estadunidense viajar até o país vizinho. Com a morte do ex-líder cubano Fidel Castro, em novembro de 2016, e a eleição do presidente Donald Trump, que rompeu novamente as relações, Davidson contou que foi inundada por ligações de familiares, amigos e clientes tristes pelo fim dos programas. Ela, no entanto, estava otimista de que seu negócio de viagens não seria tão impactado assim.

"Havia coisas abrindo devagar nos anos anteriores, e eu não achava que a morte de Fidel fizesse com que elas mudassem", revelou. Além disso, ela acreditava que, à medida que mais negócios comerciais - como companhias aéreas e hotéis - se tornaram mais envolvidos na ilha, a reversão dos progressos que já tinham sido feitos era muito difícil.

Neste mês, ela vai estar em Havana com dois grupos - a maioria afro-estadunidenses em busca de suas raízes africanas na ilha -, onde 9% da população é negra. A experiência não é diferente da de muitos brasileiros, que, embora não tenham uma empresa focada nesse tipo de roteiro, viajam à ilha caribenha em busca de uma ancestralidade perdida. "Quando fui para Cuba, em 2015, me vi em muitas situações em que conversava com as pessoas e elas me diziam: 'Você é meu irmão perdido'", relata Ricardo Moreira, de Salvador.

Ele conta que ouvir isso dos cubanos negros o impactou muito, assim como ver um grupo de rastafáris juntos na Calle Obispo, no centro de Havana, e mulheres cantando na língua iorubá, muito comum em terreiros da capital baiana. "Eu sabia que existia uma cultura afro-cubana, mas não tinha ideia de quão forte ela era", diz.

Davidson revelou o mesmo sobre as impressões dos grupos que leva a Cuba todo ano: eles voltam impactados pelas influências africanas da ilha e pela possibilidade de encontrar ali traços que ajudam a contar suas próprias histórias. A Diaspora ES projetou um itinerário específico para introduzir afro-estadunidenses na cultura afro-cubana. Eles visitam desde Callejón de Hamel, uma viela artística de Havana, até a Casa de Africa, que conta, entre outras coisas, a influência negra nos ritmos musicais latinos.

Davidson diz que o mais importante para seus roteiros é dizer que não se trata de roteiros negros, mas da própria Cuba. "A cultura afro-cubana é um aspecto importante do país, não uma subcategoria. Nós não dizemos, por exemplo, 'afro-jamaicano', mas temos o costume de falar 'afro-cubano'. Há razões para isso, mas a África está em todo lugar de Cuba", finalizou.

Roteiro negro em São Paulo
Uma vez por mês, nas manhãs de domingo, um roteiro turístico percorre o centro de São Paulo contando histórias de lugares importantes que foram enterrados pela renovação urbana constante da agora metrópole. Idealizado pelo jornalista Guilherme Soares Dias e pela profissional em relações públicas Luciana Paulino, o tour histórico existe desde julho e percorre desde construções que preservaram alguma memória africana da cidade, como a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu, até espaços que foram suplantados pelo processo de crescimento da cidade, como o próprio Largo Sete de Setembro.

"Muitos lugares importantes para a história negra foram apagados e ressignificados. A nossa ideia é mostrar que o centro de São Paulo sempre teve uma presença negra muito grande e que há diversos monumentos, prédios e personagens dessa história que estão completamente esquecidos", explicou Dias à BBC.

O roteiro teve início um mês antes de o governador Márcio França (PSB) autorizar a mudança do nome da estação Liberdade, na Linha 1 - Azul, do Metrô, para "Japão-Liberdade". À época, a decisão foi criticada por movimentos e coletivos negros a partir do argumento de que a região possui um passado mais ligado aos africanos em São Paulo do que aos asiáticos que ali chegaram um século depois.

O trajeto dura em torno de três horas e, além de percorrer lugares que ajudam a contar a história da presença africana em São Paulo no período escravocrata, também relata feitos de negros como Joaquim Pinto de Oliveira Tebas, que, mesmo servo do português Bento de Oliveira Lima por 57 anos, tornou-se um dos principais arquitetos da cidade durante o século 18 - ele ornou as fachadas do Mosteiro de São Bento, da Ordem Terceira do Carmo e da Ordem Terceira do Seráfico São Francisco com pedras de cantaria e projetou a torre da primeira Matriz da Sé, na década de 1750.

Entre os pontos de parada do tour estão a Igreja Nossa Senhora dos Enforcados e o Morro da Forca, na Liberdade, a Ladeira da Memória, a Rua Sete de Abril, a Galeria do Reggae - onde há uma aproximação com o movimento negro da cidade hoje - e pelo Largo do Arouche, onde se situa o monumento ao advogado e jornalista abolicionista Luiz Gama.

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