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Os lugares de Luis Buñuel em Paris

Por Vinícius Mendes

Da coluna Cultura
Artigo de responsabilidade do autor

Cenário para Belle du Jour, de 1967, capital francesa foi mais do que um filme para o diretor: foi onde ele nasceu para o cinema

Divulgação

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O diretor espanhol Luis Buñuel passou dois grandes momentos da sua vida em Paris. O primeiro, entre os anos de 1925 e 1929, foi quando ele conheceu o grupo surrealista e começou a trabalhar no cinema como assistente de direção de Jean Epstein. O segundo, nos anos 1960, foi quando a capital francesa viu o auge dos seus filmes: vivendo no México, ele voltou à cidade para rodar alguns dos seus clássicos, como Belle du Jour, de 1967.

Sempre irônico, Buñuel afirmava que tinha estado em Paris antes de nascer, porque acreditava que fora fruto de uma viagem de bodas dos seus pais em 1899, quando ficaram hospedados no hotel Ronceray, na Passage Jouffroy. Curiosamente, foi o mesmo lugar em que ele se hospedou em 1925, quando chegou à metrópole francesa pela primeira vez, aos 25 anos. Foi na passagem, por sua vez, que ele filmou a sequência de seu último filme, Esse Obscuro Objeto de Desejo, de 1977 -- cuja cena clássica mostra uma mulher costurando um tecido rasgado.

Paris se tornaria uma cidade fundamental para o jovem Buñuel, porque seria nela que iria dirigir sua primeira peça de teatro, El retablo de maese Pedro, de Manuel de Falla (três anos depois seria o diretor de Hamlet) e que veria, durante uma projeção, o filme As Três Luzes, de Fritz Lang. Encantado, pediu para escrever sobre cinema para a revista Cahiers d'Art e para a publicação espanhola La Gaceta Literaria e para atuar nos filmes dos diretores franceses Jacques Feyder e Henri Étiévant.

Não demoraria para que, apesar da falta de dinheiro, começasse a rodar um filme ao lado do amigo Dalí: um curta-metragem que, usando as obras de Wagner e Beethoven e os tangos argentinos, estreava o surrealismo cinematográfico. Assim foi com Um Cão Andaluz, de 1929 -- cuja cena mais famosa é a do olho da atriz Simone Mareuil sendo cortado por uma navalha.

Com o filme, Buñuel foi aceito no círculo de artistas europeus surrealistas e se tornou próximo de André Breton, Max Ernst e René Magritte. No final daquele mesmo ano, lançaria outro filme ao lado de Dalí, A Idade de Ouro, em que seus colegas de movimento criticavam a Igreja, as leis e a monarquia por meio de pequenas histórias. Durante uma exibição do filme em Paris, em 1930, um grupo de extremistas de direita atacou o cinema e, se não fosse por Henri Langlois, que o projetou na Semana Santa daquele ano na Filmoteca, ele desaparecia para sempre -- com o episódio, a obra ficou proibida na França até os anos 1980.

Buñuel comprou bilhetes para Paris ainda durante a Guerra Civil Espanhola, onde colaborou com a apresentação espanhola da Exposição Internacional de 1937, em que foi encarregado pelas projeções cinematográficas exibidas ao lado do quadro Guernica, recém-pintado por Pablo Picasso. Exilado no México, ficaria longe da capital francesa por mais de uma década até regressar para rodar filmes com o apoio do produtor Serge Siberman e do roteirista Jean-Claude Carrière.

Foi nessa época que gravou com a atriz Catherine Deneuve seu filme mais conhecido: La Belle du Jour, em que a atriz francesa interpreta uma mulher casada que decide entrar no mundo da prostituição.

Durante as viagens que realizou no segundo período parisiense, Buñuel sempre se hospedava no hotel l'Aiglon, no Boulevard Raspail, no coração do bairro de Montparnasse, e frequentava os lugares que traziam recordações da sua juventude. Gostava de andar pelo cemitério da vizinhança, dizendo que era o único lugar em que encontrava paz. Porém, a cidade toda era um palco para suas caminhadas, e quando filmava Via Láctea (1969), foi surpreendido pelas revoltas estudantis de maio de 1968, à qual aderiu rapidamente.

Durante os últimos anos de vida, Buñuel se dividiu entre o trabalho na França -- que já o aclamara como grande nome do novo cinema nacional -- e a vida na Espanha, onde produziu dois filmes com o francês Michel Piccoli: O Fantasma da Liberdade (1974) e Esse Obscuro Objeto de Desejo (1977). Mas foi em Paris, um ano antes de sua morte, que ele escolheu publicar seu livro Meu Último Suspiro, com suas memórias e relatos sobre os filmes que produziu.

Os lugares buñuelistas
Surpreende andar pela Paris de Buñuel e ver que, apesar de pequenas mudanças e algumas desaparições, como a Brasserie Cyrano, lugares que ele frequentava na cidade estão vivos até hoje. É o caso do centro de reuniões dos surrealistas, localizado ao lado do famoso bordel Moulin Rouge, em Montmartre.

Outra sorte tiveram os estúdios cinematográficos situados nas imediações de Paris e onde ele dirigiu nada menos do que nove filmes -- hoje só restam os do Éclair, na cidade de Epinay-sur-Seine.

Os passeios pelo Boulevard de Montparnasse, situado na margem esquerda do rio que corta Paris, ainda possui os cafés, restaurantes e brasseries que ele costumava citar entre seus preferidos, como o La Coupole e o La Closerie des Lilas. No outro eixo do bairro, no Boulevard Raspail, ainda hoje é possível se hospedar no tipicamente parisiense hotel l'Aiglon, em frente ao cemitério do bairro, onde ele visitava as tumbas de Baudelaire, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Julio Cortázar.

No l'Aiglon, Buñuel se encontrava com Jean Claude Carrière para trabalhar nos roteiros dos filmes e, segundo o colega, não foram poucas as vezes em que entrou no quarto do cineasta e o encontrou deitado no chão, desajeitado, fingindo-se de morto para assustá-lo.

Perto da Gare de Lyon, o diretor espanhol era apaixonado pelo prédio do restaurante Le Train Bleu, situado abaixo de uma abóbada em que estão pintadas todas as cidades que se ligava a Paris pelos trens da estação. Os assentos do estabelecimento imitam os velhos bancos das composições antigas. Buñuel chegou a afirmar que sonhava rodar algum trecho de filme ali, mas nunca conseguiu autorização.

Os cinemas que ele frequentava continuam existindo (em Meu Último Suspiro, Buñuel conta que, quando de sua chegada a Paris, em 1925, via três filmes por dia), mas agora o local onde foi exibido Um Cão Andaluz pela primeira vez, o Studio des Ursulines, é um cinema infantil. No Studio 28 ainda é possível ver algumas fotografias que recordam os destroços provocados por membros da extrema-direita francesa para atacar A Idade de Ouro. O Vieux Colombier quase foi destruído, mas hoje é um teatro.

O cinema de Buñuel começou em Paris com uma mulher tendo seu olho cortado por uma navalha de barbear, e terminou ali, na sequência em que uma mulher dentro de uma loja remenda um bordado na Passage Jouffroy. Para conhecer estes e outros lugares que contam a história do cineasta na capital francesa, o Instituto Cervantes parisiense recentemente inaugurou um itinerário de 4 km e 17 lugares sobre ele na cidade. Para baixá-lo, clique aqui.

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